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Interior sem emprego, universidade sem estratégia!

AmazonasAgora

02/03/2026

“Interior sem emprego é o retrato de uma formação desconectada da realidade amazônica. Para o interior do Amazonas, a escolha é urgente: formar empregados amplia o desemprego; formar empregadores ativa vocações, cria renda e sustenta o próprio território”

Empregador, Não Empregado: O Que o Massachusetts Institut of Technology – MIT Nos Ensina Sobre Formação Universitária

Nos últimos 3 anos tenho promovido junto com o Massachusetts Institut of Technology um curso de polímeros naturais pela Universidade do Estado do Amazonas. Este curso conta com a participação de alunos de graduação do MIT e alunos do Estado do Amazonas. Uma experiência e tanto, mas o que chamou atenção é na apresentação final do trabalho pelo grupo: nas primeiras imagens, os alunos falam nas questões econômicas de oportunidades de negócios com o produto que desenvolveram.

Isto levou a uma conclusão que não me sai da cabeça: o Massachusetts Institut of Technology forma empregadores, não empregados.

É hora de nossas universidades se voltarem para estes aspectos. Atualmente, grande parte dos doutores formados no INPA são professores — uma atividade não menos nobre — mas falta-lhes identificar as suas qualidades para tornar-se empreendedores. E aqui não estou falando apenas de abrir uma startup. Estou falando de algo muito mais fundamental: a capacidade de enxergar oportunidades, articular recursos e transformar conhecimento em valor realizável.

O Dilema do Interior do Amazonas: Por Que Formar Empregados Para Onde Não Há Emprego?

Mas há um aspecto ainda mais urgente nesta discussão. O interior do Amazonas não tem emprego. Não há vagas suficientes. Não há mercado de trabalho estruturado. Não há grandes corporações absorvendo profissionais formados.

Então por que continuamos formando empregados?

Um jovem do interior do Amazonas que se forma em Engenharia, Biologia ou Administração enfrenta uma escolha brutal: migra para Manaus, para o Sul, ou fica desempregado. Essa é a lógica perversa do modelo atual. Formamos para um mercado que não existe localmente. Criamos profissionais qualificados para serem absorvidos por economias que não são a nossa.

Mas e se mudássemos a pergunta? E se, em vez de formar o profissional que procura emprego, formássemos o profissional que cria oportunidade?

Um engenheiro formado com visão de mentofatura no interior do Amazonas não precisa procurar emprego. Ele pode:

  • Identificar um recurso natural local (uma planta medicinal, uma fibra, um produto agrícola) que está sendo desperdiçado ou subaproveitado

  • Articular conhecimento técnico com conhecimento econômico para transformar esse recurso em produto

  • Estruturar um modelo de negócio que gera renda para a comunidade local

  • Escalar a operação, criando empregos para outros

Isso não é utopia. É exatamente o que observei no curso de polímeros naturais: alunos que conseguem enxergar um produto desenvolvido em laboratório e imediatamente pensar em cadeia de valor, mercado, viabilidade econômica, oportunidades de negócio.

A Mentofatura Como Caminho

O que observei no Massachusetts Institute of Technology é exatamente o oposto do que fazemos. Lá, a formação é construída para desenvolver o que podemos chamar de mentofatura — a capacidade de fabricar valor a partir do conhecimento articulado entre múltiplas dimensões: técnica, econômica, social, estratégica.

Quando um profissional é formado para enxergar sistemas, articular competências, identificar gargalos e construir pontes entre domínios diferentes, ele desenvolve automaticamente a capacidade de criar — seja dentro de uma grande organização, seja num projeto próprio, seja no setor público. A visão empreendedora emerge da amplitude de formação, não de uma aula sobre como montar um pitch.

Isso significa que o bacharel formado para a mentofatura pode muito bem passar toda a carreira como profissional contratado — e ainda assim ser profundamente diferente. A diferença não está em abrir empresa. Está em ter autonomia intelectual, visão sistêmica e capacidade de gerar valor onde quer que esteja.

Por Que Isso Importa Para a Amazônia — E Especialmente Para o Interior

Na Universidade do Estado do Amazonas, temos uma oportunidade única — e uma responsabilidade ainda maior. Somos uma instituição que pode formar profissionais capazes de identificar as oportunidades que a região oferece — em biotecnologia, em economia criativa, em inovação sustentável — e transformá-las em negócios viáveis, em projetos estruturantes, em soluções que geram emprego e renda.

Nos municípios do interior, não há mercado de trabalho formal esperando pelos nossos graduados. Não há empresas multinacionais, não há grandes indústrias, não há vagas de emprego estruturadas. O que há é potencial bruto: recursos naturais, conhecimento tradicional, comunidades com necessidades reais, problemas que precisam de soluções criativas.

Se continuarmos formando apenas executores — profissionais treinados para preencher vagas em organizações já existentes — estaremos condenando nossos alunos do interior a duas opções: migração ou desemprego. Estaremos drenando talento da região, esvaziando comunidades, perpetuando a desigualdade.

Mas se formarmos integradores sistêmicos — profissionais que entendem não apenas a técnica, mas também a economia, a regulação, o contexto social e estratégico — estaremos criando agentes de transformação local. Profissionais que conseguem traduzir uma solução técnica em linguagem de negócio. Que conseguem enxergar uma oportunidade onde outros veem apenas um recurso.

Exemplos Concretos de Oportunidades No Interior

Pense em um jovem de Manacapuru, Itacoatiara ou Parintins formado em Engenharia Química com essa visão de mentofatura:

  • Ele conhece as plantas medicinais locais. Consegue extrair, processar, padronizar. Mas também consegue pensar em marca, embalagem, regulação, mercado nacional e internacional. Cria uma empresa de fitoterápicos que emprega 50 pessoas da comunidade.

  • Ele vê a produção de açaí, cacau, guaraná sendo feita de forma tradicional. Consegue pensar em agregação de valor: processamento, transformação em produtos de maior valor agregado, certificação, acesso a mercados premium. Estrutura uma cooperativa que multiplica a renda dos produtores.

  • Ele identifica resíduos de madeira sendo queimados. Consegue pensar em economia circular: transformar esses resíduos em biocombustível, em material de construção, em insumo para indústria química. Cria um negócio que resolve um problema ambiental e gera renda.

Esses não são empreendedores no sentido de “abrir uma startup de tecnologia”. São agentes econômicos locais que conseguem transformar o potencial da região em valor realizável. E isso só é possível se a formação universitária os preparar para isso.

A Escolha Está Diante de Nós

A educação superior em ciência, tecnologia e inovação tem diante de si uma bifurcação. Pode continuar reproduzindo o modelo que a gerou — formando executores com diploma para um mercado que está se transformando e que, no interior do Amazonas, nem existe — ou pode dar o salto que o momento histórico exige: formar o integrador sistêmico, o articulador de competências, o profissional que faz a mentofatura acontecer.

Essa escolha não é apenas pedagógica. É política, econômica e civilizatória. As instituições que entenderem isso primeiro terão uma vantagem que não é apenas produtiva — é de capacidade de agência sobre o próprio futuro.

E para o interior do Amazonas, essa escolha é ainda mais urgente. Porque lá, formar empregados é condenar ao desemprego. Formar empregadores é libertar potencial.

______________________________

*Estevão Monteiro de Paula possui graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Amazonas (1979), mestrado em Engenharia de Estruturas na Escola de Engenharia de São Carlos pela Universidade de São Paulo (1981) e Ph.D. – University of Tennessee (1989) dos EUA. Membro da comissão de revisão da ABNT NBR 7190:1997 – Norma de Calculo e Estrutura de Madeira da Associação Brasileira de Normas Técnicas. Exerceu atividades de Presidente do Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas (órgão estadual de meio ambiente), Gerente do Centro Técnico Operacional de Manaus do Sistema de Proteção da Amazônia – SIPAM, Diretor Substituto do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA e Coordenador Geral de Pesquisas do INPA. Representou o Estado do Amazonas em comissões técnicas no Peru e Alemanha. Coordenou projetos de pesquisas na área de uso e tecnologia de Madeira, entre outras funções como gestor público de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia.


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