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CF: ALÉM DO ASSISTENCIALISMO

Walbert Monteiro*


A realidade das pessoas em situação de rua, tema da Campanha da Fraternidade 2026, não pode ser analisada de forma simplista, como se tudo se resumisse à ausência de um teto. A falta de moradia é uma das faces mais visíveis e dolorosas do problema, mas longe de ser a única. Por trás de cada pessoa que vive nas calçadas, sob marquises ou em espaços improvisados, existe uma história marcada por rupturas, perdas, fragilidades e, muitas vezes, por uma sucessão de negação de direitos fundamentais.

É preciso superar a tentação de enxergar essa realidade apenas com o olhar emergencial. Oferecer abrigo é necessário, urgente e cristão, mas não o suficiente. Sem políticas consistentes de inclusão que garantam acesso ao trabalho, à qualificação profissional e à geração de renda, qualquer iniciativa corre o risco de ser apenas paliativa. O trabalho, além de meio de subsistência, é caminho de reconstrução da dignidade e da autoestima, elemento essencial para que a pessoa volte a sentir-se parte da sociedade e protagonista da própria história.

Outro aspecto que não pode ser ignorado é o acesso à saúde integral. Grande parte da população em situação de rua carrega doenças crônicas não tratadas, transtornos psíquicos, traumas profundos e sofrimentos silenciosos. Sem assistência médica contínua e acompanhamento psicossocial, torna-se praticamente impossível falar em reinserção. Cuidar dessas pessoas é reconhecer nelas a presença do Cristo sofredor, que continua a nos interpelar nas periferias existenciais do nosso tempo.

Há ainda a questão da dependência química, uma das mais complexas e desafiadoras. Muitos dos que hoje estão na rua possuem família, tiveram profissão, conheceram outra realidade de vida, mas foram sendo lentamente aprisionados pelo poder destruidor das drogas. Neste caso, a resposta não pode ser marcada por repressão ou indiferença, mas por atendimento especializado, humanizado e contínuo, capaz de promover libertação e reconstrução de vínculos. Trata-se de um caminho longo, que exige equipes multidisciplinares, comunidades terapêuticas sérias e políticas públicas integradas.

A CF nos convida, portanto, a dar um passo além do assistencialismo. Oferecer algo a quem precisa, sim! Mas, urge criar condições para que cada pessoa recupere sua autonomia, sua dignidade e seu lugar na sociedade. É o que a Doutrina Social da Igreja chama de promoção humana integral, fundada no reconhecimento da dignidade inviolável de cada filho e filha de Deus.

Esse desafio não pertence exclusivamente ao poder público, embora dele se exijam políticas eficazes e contínuas. Ele envolve toda a sociedade: Igreja, universidades, iniciativas privadas, organizações sociais e cada cidadão. É um chamado à construção de uma cultura do encontro que substitua a lógica do descarte e da invisibilidade.

No fundo, a grande pergunta que esta realidade nos impõe é profundamente evangélica: queremos apenas retirar pessoas das ruas ou estamos dispostos a caminhar com elas na reconstrução de suas vidas? A resposta a essa pergunta revelará o grau de autenticidade da nossa fé e o alcance concreto da fraternidade que professamos.

A pessoa em situação de rua não é um problema a ser resolvido, mas um irmão a ser acolhido. Nela está o Cristo que continua a nos dizer: “Tive fome, tive sede, era estrangeiro e me acolhestes”. Os frutos da CF só serão eficazes se nos conduzirem a esse encontro transformador, onde caridade é compromisso e solidariedade se traduz em ações que devolvam vida, esperança e dignidade.

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*Jornalista e escritor, membro das Academias de Letras e de Jornalismo do Pará.

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