Um sopro de esperança
- Professor Seráfico

- há 13 horas
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Quando Madalena acordou, os ponteiros do relógio pareciam fazer amém. Era tarde, já passando da hora do almoço. O dia anterior tinha sido de muita luta e seu corpo entrou em regime de defesa, esticando o descanso do dia.
Madá, como a chamávamos, era uma senhora jovem, nascida no interior do Amazonas e veio para Manaus ainda criança, morar "como se fosse da família" com uma família amiga da sua mãe.
Era acostumada a acordar cedo, ainda quando muito nova, mas em Manaus não tinha sido como no interior. Aqui eu acordava bem mais cedo e fazia todo trabalho de adulto. Coava o café, limpava a casa, cozinhava, passava e lavava, lembrava Madá, sem nenhuma nostalgia.
Estudava na escola pública, diferente dos filhos da amiga da mãe. Tinha apenas uma farda: calça, camisa e sapato. Quando o sapato descolava, tinha que passar cola polar e torcer para não chover durante a caminhada até a escola.
Madalena chegou à adolescência. Aí o martírio aumentou. Não era mais somente os afazeres domésticos. Começaram os assédios dos garotos, filhos da amiga da mãe, e os olhares concupiscente do marido da senhora. Logo as investidas ficaram mais agressivas.
Madá já estava próximo de terminar o ensino médio e tomou uma decisão inesperada: foi morar com uma amiga que tinha conhecido na escola.
Para sua casa, no interior, não podia voltar. Sua mãe já tinha muita preocupação com os outros filhos.
Madá logo arranjou trabalho no Distrito Industrial de Manaus. Antes, tinha pintado trabalho de empregada doméstica, mas ela sabia da barra que iria enfrentar. Dessa ela já tinha saído.
E assim a vida ganhou um sopro de esperança.
Empregada, com aquele salário pequeno e jornada de trabalho escorchante, ela não parou. Entrou para a universidade pública, através de um programa de inclusão e expansão da universidade brasileira do governo federal. Lá conheceu sua primeira paixão. Um jovem estudioso, cheio de sonhos e que lhe dava muito amor.
Casaram. Conseguiram um local para chamar de seu, através do programa de moradia popular do governo central. O marido, aquele primeiro amor, não mudou em nada. Continua sendo um homem gentil, amoroso e sonhador. Madá nem tinha imaginado que a vida podia ser tão boa um dia.
Terminando a faculdade, os dois sonham longe, pensam em ter filhos, viajar, continuar estudando. Isso não pode parar. Foi no estudo que conheceu sua felicidade e sua liberdade.
Madalena é sinônimo de resistência. Sobreviveu às piores práticas que o mundo não superou. Foi explorada quando criança e assediada quando adolescente. Fugiu para não ser estuprada. Reconhece que recebeu a mão amiga de outra mulher e ali as duas resistiram juntas.
Sua amiga também seguiu a vida em frente. Estudou, trabalhou, só não teve sorte no amor. É difícil encontrar um homem que tenha respeito e amor no coração, mas ele existe, acredita Madá.
Madalena hoje reconhece a importância de políticas públicas inclusivas para garantir cidadania a todos seres humanos, principalmente para as mulheres, vítimas persistentes do machismo e da violência social. Se não fosse essa janela aberta e o braço solidário de outras mulheres, tudo seria muito mais difícil.
Madá segue a vida, como tantas Madás que vivem no mundo.
Lúcio Carril
Sociólogo

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