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Um Brasil sem Julieta

Uma das maiores virtudes de William Shakespeare (1564-1616) talvez tenha sido a captação dos sentimentos e comportamentos humanos. Essa qualidade cada dia menos frequente, sobretudo nos que chegam a posições de mando tão cobiçadas. Sem que se despreze frequência igual, em sentido contrário, de perversões capazes de transformar a noite em dia e o dia em escura e impenetrável noite. Ao poeta e dramaturgo inglês não faltou gênio, para tratar do amor em sua mais extremada manifestação, que a peça Romeu e Julieta ilustra. Por um desses azares sem acaso que tanto têm caracterizado a política brasileira, o governador de Minas Gerais, batizado distraidamente com o mesmo nome do membro dos Montecchio, representa o bardo de Strattford-upon-Avon, com sinal trocado. A lição de desamor, mais que de ignorância, que o faz agredir a Federação e propor o combate inter-regional Sul-Sudeste versus Nordeste-Norte do País não é outra coisa. Sobretudo, por dizer dos(maus) sentimentos nutridos por boa parte dos brasileiros (mas nem todos, felizmente) das duas regiões mais ricas em relação às duas mais pobres. E de suas populações, obviamente. A guerra proposta por esse Romeu desalmado nada tem a ver com o pacto entre a personagem criada pelo poeta dos séculos XVI-XVII e sua amada. Ao contrário, a manifestação do governador de Minas Gerais elucida apenas o que ele diz, no alto de sua pretensa ignorância. Que ele ignore quem é Adélia Prado, até se admite. Afinal, um escritor em prosa ou em verso só é conhecido pelos que leem mais que livros Caixa, Razão e Diário. Quanto às relações entre os Estados-membros de uma Federação, todavia, admitir a ignorância de quem tem sob as mãos as rédeas de uma dessas partes integrantes beira a irresponsabilidade. Mas não consegue esconder o significado de proclamações por ele mesmo, o Romeu das Alterosas, proferidas. Menos por fazer parte indelével e obscura do conservadorismo de que se gaba, ele explicita princípio orientador da direita brasileira: ignorar o que interessa à maioria e à redenção do povo sofrido, enquanto seleciona os itens e momentos de fingir ignorância a respeito daquilo que lhe poderá render votos e dinheiro. As palavras do Romeu de estrebaria despertaram altiva reação dos setores menos belicosos da sociedade brasileira, obrigando até órgãos de comunicação relevantes a desmentir-se a si próprios. Afinal, nem sempre os interesses dos seus proprietários e dirigentes divergem dos que lhes servem de notícia e comentários. O que interessa, agora, é observar a reação dos governantes e lideranças das unidades federativas agredidas. Por enquanto, ainda não há notícia ou repercussão relacionada à resposta que os brasileiros comprometidos com a guerra mais santa que possa haver – contra a desigualdade, certamente esperam. Pensar que Zema fala para seus eleitores coestaduanos parece especulação infundada, não fosse o governador mineiro um dos postulantes à herança do ex-capitão excluído das forças armadas. Ignorante seletivo, talvez não seja tão insensível quanto parece, diante da eventualidade de precisar dos votos dos nordestinos. Estes impediram a renovação do mandato agora impossibilitado de devolução ao que dele fez moeda de troca; nada mais. Estou certo de que o separatista não sabe quem foi Tiradentes, muito menos Arão Reis – o arquiteto paraense que planejou e contruiu a cidade onde ele vive.

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