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Generosa perversidade

O governo prepara-se para liberar, total ou parcialmente, saldos das contas do FGTS. Esse fundo, criado para socorrer aposentados ou trabalhadores ao perderem o emprego, tinha como propósito reduzir o impacto financeiro imposto por algum dos fatos que o tornam resgatável. Todos os que passam ou passaram por algum deles sabem da oportunidade e utilidade, naqueles momentos. A soma desse fundo constitui montanha de recursos, e maior seria, se menor fosse a omissão de parte do patronato. Vinculado a uma conta pessoal do trabalhador empregado, o valor gera rendimento de que se apropria o beneficiário, quando de sua dispensa ou aposentadoria. Há outras hipóteses de liberação, em porções menores, ao longo da vida útil (?) do titular da conta. Do outro lado do balcão, está a ínfima minoria dos que acumulam mais de 50% da renda nacional. Algo bem menor que 1% da população. Enquanto o rendimento dos trabalhadores, via FGTS, contém-se nos limites oficiais da inflação, os acumuladores privilegiados buscam aplicar, via sistema financeiro, o que lhes resta, pagas todas as suas contas. Nestas, incluído todo tipo de ostentação e superfluidade que não os têm feito pessoas melhores ou dignas de merecer o adjetivo humano. O uso antecipado do FGTS destina-se apenas ao pagamento de dívidas dos titulares das contas. Nunca as famílias brasileiras deveram tanto. Muitas, em razão de empréstimos operados lícita ou ilicitamente. A extraordinária acumulação levou os donos do capital a investir nas dificuldades dos pobres, até o ponto em que os devedores chegaram à insolvência. As taxas cobradas dos que lhes tomam empréstimos sempre são maiores que os rendimentos que o banco paga, na conta vinculada do FGTS. Se os trabalhadores tivessem a oportunidade de sacar, periodicamente, parte do que têm na conta, talvez não chegassem a endividar-se de forma crescente, e chegar à insolvência. Os saques que farão agora, sairá da conta vinculada e irá para a conta dos credores, empresas e agiotas. Não demorará a que de novo os endividados tenham que novamente recorrer à forma de perversa generosidade oferecida pelo governo. Logo, os beneficiários imediatos e permanentes são os acumuladores. Como sempre, à custa do trabalhador. Antes que algum opositor enfurecido e irracional diga isso, digo-o eu.

 

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