REFLEXÕES SOBRE O DIABO
- Professor Seráfico

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Felix Valois*
O diabo é uma das figuras mais bizarras a emergir das lendas bíblicas. Não me é dado saber se ele, ou algum parente, está presente em outras religiões. No credo católico, porém, ele se faz presente desde cedo, conforme me ensinaram por via do “primeiro catecismo da doutrina cristã”. Era ali, na igrejinha de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na rua Leonardo Malcher, que eu aprendia ser deus “um espírito perfeitíssimo, criador do céu e da terra”, enquanto o satanás era o anjo caído. Transmudado em serpente, levou Adão e Eva à prática do primeiro ato de imoralidade (que bom!) de que se tem notícia. Pagaram caro por terem caído na conversa do coisa ruim. Viviam no bem-bom do paraíso, do qual foram sumariamente expulsos, uma vez que não existia lei do inquilinato, nem qualquer diploma a regular posse ou propriedade. A pena acessória, imposta ao casal pecador, foi a de “ganhar o pão com o suor de seu rosto”, assim como se trabalhar fosse um demérito. Coisas de avançada teologia.
Outro dia me lembrei da expressão “o diabo a quatro”. Dei-me conta de que não lhe conhecia a origem, nem o verdadeiro significado. Os livros não me foram de qualquer valia para superar a dúvida. O jeito foi recorrer ao sapientíssimo doutor Google, agora mais erudito ainda, depois que lhe implantaram a tal inteligência artificial. Feita a consulta, eis a reposta do insuperável mestre: “A expressão "o diabo a quatro" é usada para indicar uma grande confusão, algazarra ou exagero em determinada situação. Origem. A origem mais aceita remete ao teatro medieval francês. Nas encenações chamadas de "Mistérios" (peças de temática religiosa), era comum a presença de figuras demoníacas para representar o mal ou prover alívio cômico através do caos. A "Grande Diabice": Quando a peça exigia um nível extremo de desordem e barulho no palco, entravam em cena quatro atores caracterizados como diabos (Lúcifer e seus assistentes). O Caos no Palco: Esse grupo de quatro era o número máximo utilizado para as cenas de maior "bagunça", correndo entre o público e fazendo acrobacias. Daí surgiu a ideia de que, se havia "o diabo a quatro", o nível de confusão era o maior possível. Significado Atual. Atualmente, a expressão expandiu seu sentido para além da bagunça, sendo utilizada para: Intensidade: "Ele gritou, chorou e fez o diabo a quatro" (fez de tudo, com exagero). Enumeração exaustiva: "Compramos roupas, sapatos e o diabo a quatro" (equivalente a "e tudo mais" ou "e o escambau").
Já se vê que a péssima fama da figura não é recente. Atravessa milênios e, pelas peripécias de seu titular, só tende a piorar. Segundo consta, é poderosíssimo o senhor diabo. Coisa, aliás, que não me entra no bestunto, se encaro o assunto a partir do ângulo religioso. Proclama-se que deus é todo-poderoso. Por que, então, dá toda essa colher-de-chá para o seu arqui-inimigo? Por que deixa-lo existir? Mas isso são elucubrações ateias que hão de ser perdoadas nos altos escalões da teologia. O certo, porém, é que o senhor satanás tem mais poderes que todos os super-heróis juntos, aí incluídos Super-Homem e Capitão Marvel. Tanto é assim que, muito antes de Santos Dumont pensar em contornar a torre Eiffel, ele já havia inventado e posto em uso o primeiro monoplano do mundo. Outra coisa não eram, na verdade, as vassouras com as quais as bruxas viajavam de sabá em sabá, com a vantagem de que eram veículos de autopropulsão e, portanto, absolutamente inofensivos para o meio ambiente.
Já se viu, no início deste despretensioso escorço histórico, que uma das mais impressionantes capacidades da diabólica criatura é a da transmutação. Aqui mesmo, nestas plagas tupiniquins, há quem jure de pés juntos que ele apareceu, poucos anos atrás, como presidente. Por mais absurdo que isso possa parecer, não é de duvidar da versão. É bem certo que deveria se tratar de um diabo de quinta categoria. Assim digo porque o senhor dos infernos mesmo, o canzarrão de verdade, não seria tão idiota a ponto de acreditar que a terra é plana e que uma vacina é capaz de transformar alguém em jacaré.
Agora mesmo, nos dias que correm, dizem estar havendo outra aparição do malfazejo, desta feita no hemisfério norte. Ali, um diabo louro meteu na cabeça que é o dono do mundo e está a exigir que os governantes de toda a terra lhe rendam vassalagem e paguem pela não eventual ocupação de seus respectivos feudos.
De tudo isso só posso concluir que, seja qual for a versão do satanás, ela é ruim. Exceção, talvez, para o Cão do Luso. De qualquer sorte, é melhor evitar contato com todos os tipos de demônios. Melhor e mais seguro é mantê-los recolhidos na Papuda e dizer como faziam os antigos: “vade retro”, satanás.
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*Integrante da tripulação deste blogue, o criminalista, professor e articulista disse o que o editor diria, se escrevesse tão bem quanto o autor do texto acima. Consignam-se aqui os agradecimentos e os aplausos do editor ao Valois.


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