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Os vira-latas

É manicure quem melhor definiu a briga às vezes apenas aparente, entre animais humanos que frequentam o ambiente político. Antes de explicar tudo, vamos aos fatos. Referem-se estes, sempre sob justificada suspeita, às relações entre empresários e governos. Uns culpando os outros, a despeito de sua identidade de interesses, cada dia mais próximos dos cofres, esse objeto mágico que a todos atrai. Seja em nome de um projeto pessoal, seja em nome de um deus, ora chamado mercado, ora denominado e dominado segundo sacerdotes orientados por estranho catecismo do mal. Não chega a ser milagre o que essas relações delituosas determinam em mim, mente e coração agredidos, como o da maioria das pessoas. Ontem ligados pelo que de mais abjeta a mente humana é capaz de produzir, chega o momento em que alguns centavos, prometidos e não pagos, fazem a bolha explodir. (Mesmo que não se conte aos centavos a dinheirama). Essa conduta, por mais que se a reconheça em franco e célere processo de generalização, só será admitida e defendida com a consumação do complexo que o teatrólogo Nélson Rodrigues denominou. Fenômeno que tem correspondência em outras sentenças de que se incumbiu a própria sabedoria popular. O bolso é o órgão mais importante do corpo humano. Todo homem tem seu preço. Farinha pouca, meu pirão primeiro. Quem não puxa saco, um dia puxará carroça. Enfim, não falta frase para caracterizar o complexo de vira-latas criado pelo autor de Véu de Noiva e A Dama do Lotação. Que me perdoem os cães sem raça, enquanto os que a têm ocupam colos e preocupam mentes, perfumados, uns; as outras, vazias - pelo menos de amor ao próximo que se alega semelhante. Felizmente, ainda é maioria os que têm órgãos mais sadios que os bolsos; os que não têm preço porque não estão à venda; os que não se satisfazem apenas com a farinha nossa de cada dia; os que jamais puxarão carroça, porque a natureza os dotou de talento e arte. Fique a critério dos outros, minoria ainda, remexer as latas de lixo e colher a podridão que sempre os alimentou e sempre alimentará. Sorry, periferia, diria um Abrahim Sued às avessas.

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