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Corte na Corte

10 de mar.
2 min de leitura

Chamei câncer social a realidade brasileira, em que se torna difícil estabelecer diferença entre criminosos e cidadãos de bem. Por enquanto, tentam passar por boa gente indivíduos que passar pela frente de uma delegacia policial entregue a pessoas sérias e respeitáveis, seria correr risco demasiado.  De serem presos. Pelo que fizeram e não pagaram e pelo que vêm fazendo, a despeito de tudo, e ainda ameaçam fazer. Em meio às metásteses espalhadas por esse quase absurdo tipo de comprometimento das células, figuras cujo merecimento as levaria às grades de penitenciárias de segurança emergem da lama em que desenvolvem seus talentos predatórios e perversão crescente de que se imbuem. Como a malária, a doença de Chagas e outras endemias, a corrupção parece insuperável. Dela não escapam, em especial, os que um dia provaram do agradável sabor do poder, seja ele exercido em qualquer dos institutos descritores da república. Executivo, Legislativo e Judiciário, assim, sofrem a ação corrosiva da volúpia, não apenas pelo poder em si, mas pelo que dele pode resultar. Basta que oferecido ou posto em mãos dos que, total e absolutamente pobres, encontram realização com o dinheiro – ganho honestamente ou fruto de expedientes tidos por esses mesmos “poderosos” como mero exercício de criatividade. Malsã, todavia. O germe desse mal, longe de encontrar-se em bactérias, fungos ou vírus, provém dos valores que orientam sua conduta como agentes públicos e seus cúmplices. A essa endemia tem-se dado o nome de corrupção, onde operam com igual escala de responsabilidade e desembaraço, portadores de mandatos ou decretos de nomeação e seus paus-mandados, na esfera pública e na privada. Alguns desses predadores sociais, alheios a qualquer valor aproximado do que se tem por dignidade, acabam por cobrar a tolerância da sociedade, de quem se julgam credores, pelo cumprimento de obrigação legal e de ofício. Pena que, do outro lado, a maioria dos cidadãos desperdice a oportunidade que o exercício democrático lhe permite: votar nos que restam dignos e capazes de professar valorescondizentes com a liberdade, a democracia e o sonho. Garantido o direito de manifestar sua vontade – o mais efetivo e radical traço distintivo dos animais -, o eleitor, frequentemente, tem preferido seguir o andar da carruagem, renunciando àquilo que o faz diferente do burro, da raposa, do rato e de outras espécies que ainda não lograram chegar à condição humana. Daí a necessidade de, também serem promovidos os devidos cortes na corte que se chama suprema.

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