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Lição cuidadosamente esquecida

Do ponto de vista moral e humano, qual a diferença entre estuprar uma pessoa e matar um grupo delas, seja qual for a arma? O noticiário dos últimos dias dedica-se quase exclusivamente a dois desses exemplos monstruosos. Um envolve jovens de classe média do Rio de Janeiro. Outro tem o Presidente dos Estados Unidos da América do Norte como o líder da matança que percorre o Mundo e mantém a ameaça de matar-nos todos. Em ambos os casos, não têm sido poucos os antecedentes. Se o prazer da guerra e o júbilo pela morte tiveram sua mais cruel experiência em Hiroshima e Nagasaki, a ação dos que se chamava curradores remete ao ano de 1958, quando o Planeta tentava reerguer as ruínas produzidas pela Segunda Grande Guerra. Às milhões de vidas perdidas no conflito bélico corresponde, moral e humanamente, o estupro e o assassinato de uma jovem fluminense, na rua então mais elegante da cidade que um dia mereceu o apelido – maravilhosa. Aída Cury era o nome da vítima, mas a diferença de Cássio Murilo e Ronaldo Sérgio e Adolpho Hitler e Himmler é apenas questão de grau e quantidade. Os dois tipos de crime nada têm de novo, a não ser o fato de se terem tornado costumeiros e, pior, tolerados por crescente parcela da população mundial. O holocausto, tão condenado pela opinião pública internacional, ceifou a vida de milhões de judeus, cujos sucessores tratam da revanche, pagando com a mesma moeda – a exterminação dos palestinos. A prática de crimes sexuais permanece firme, enquanto novas Aídas Cury têm sua tragédia relatada por Davids Nasseres extemporâneos. Ou apenas temporões. Tudo como dantes, em todos os quartéis, não só no de Abrantes. Ninguém se lembra de perguntar quais os beneficiários de todos esses crimes. Se só agentes públicos que manda a Lei sejam fiscais do cumprimento das regras do jogo, se de pretensos representantes populares cuja energia é posta exclusivamente a serviço de seu próprio enriquecimento pessoal, ou se criminosos comuns, sem gravata, transformados em pedintes do que que lhes é devido. Também por causa da Lei...Mesmo os melhores leitores de Agatha Christie fazem questão de ignorar o que ela ensinou, com inegável maestria.

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