O barro de que somos feitos
- Professor Seráfico

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Atualizado: há 9 horas
Dizem muitos que Adão é o primeiro homem. Dele teriam sido criados todos os demais, a partir da costela que lhe assegurou gerar descendência. Com Eva e a interferência de uma serpente, surgiram os ocupantes do que os mesmos narradores chamaram "vale de lágrimas". Um território sem começo nem fim, em que se sucedem gerações cada dia mais despreocupadas de suas origens e destino. Embora dito nos livros que proclamam e autorizam a versão a que um andarilho da Galileia aderiu e disseminou, teríamos sido todos provindos do pó. E a ele, inevitavelmente voltaremos. Quando chegar a hora de conhecer a morada definitiva, aquela anunciada como o Paraíso, de que todos fogem, e por cuja conquista são capazes de abrir mão de fortunas, ganhas com o "suor do próprio rosto" (outro dos preceitos religiosos) ou, ao contrário, fruto de atividades pecaminosas, quando não ostensivamente criminosas. Ao pó é que voltaremos, é a conclusão. Quando se desfizeram os pés do ídolo, boa parte das explicações e interpretações religiosas foi abalada. Eram de barro os pés que sustentavam o suposto poder. Talvez o início da construção de uma sentença aplicável em escala crescente de abrangência territorial e social. O barro, como tudo que é sólido, também desmancha no ar. Tal efeito, todavia, não afeta apenas as construções físicas, chamadas casas, frágeis em demasia para suportar águas abundantes, em geral derramadas sobre as regiões e bairros mais pobres do Brasil. Sem que falte barro para sustentar aventuras que, seguindo a regra, são desfeitas a todo instante. Como o noticiário permite acompanhar. Ainda ontem, louvava-se a firmeza com que o Ministro Alexandre de Moraes, favoreceu a democracia e a república. Sem sua atuação determinada, possivelmente teríamos voltado à ditadura, cuja experiência deixou sequelas que teimam em mostrar-se vivas (e operantes, como é costume dizer em alguns ambientes). Alexandre de Moraes agiu como deve agir todo cidadão e agente público digno do posto que ocupa. Mais que de todos os outros, dos servidores públicos, uniformizados ou não, o mínimo que se pode exigir é o estrito cumprimento de seus deveres legais. Ponto. Alça-los à condição de heróis e outorgar-lhes além do respeito pelo cumprimento do dever legal, é arriscar demais. Acaba-se por construir ídolos que, tendo os pés de barro, o mais fino fio de água põe abaixo. Isso não quer dizer que todos são feitos do mesmo barro. Recomenda, porém, que sejamos justos. Também que a nossa Justiça não se apegue aos interesses que têm movido a sociedade humana, desde que o suor e o sangue da maioria passou a ser o insumo (a palavra cai bem, não é?).da riqueza de uns poucos.

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