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Se pinta o clima...

O noticiário desta quinta-feira (12-03) destaca a criação, por jovens estudantes, de um jogo baseado no estupro coletivo de jovens. Os criadores, alunos de engenharia da computação, não frequentam aulas em escolas da periferia de alguma das cidades mais empobrecidas do País. Constituem um grupo de uma das mais respeitadas instituições de ensino, o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, cuja fama e competência leva a gravar facilmente na memória a sigla – é o ITA, a que se atribuem tantas façanhas e avanços tecnológicos. Endinheirados ou não, os alunos desse estabelecimento são parte das elites, pelo menos do ponto de vista educacional, às vezes até científica. Isso é o que de mais importante deve ser destacado. Mais que revelar mau caráter dos jovens criativos, o fenômeno apenas testemunha os valores que os inspiram e os sentimentos que esses valores incutem em suas mentes. Não é o aspecto lúdico por si mesmo, que embute o perigo do jogo. Jogos têm sido recomendados por cientistas do comportamento, tanto quanto por médicos e profissionais especialistas nas múltiplas formas de terapia em uso. O jogo dos estudantes do ITA, porém, vai além de algum eventual uso positivo, eis que o aspecto recreativo é suplantado pela naturalização de um fenômeno que nada tem – de lúdico ou terapêutico. O estupro, inspirador dos estudantes, e os que o praticam haverão de agradecer a ajuda (involuntária ou apenas desatenta que seja) à prática criminosa. Ver com olhos de brincadeira algo que atenta contra os direitos humanos corresponde a estimular a prática delinquente – pior, ainda – fazendo dela mais uma forma de lazer e diversão. Constitui, portanto, manifestação cabalmente perversa, assemelhando-se à defesa, estímulo e recomendação da tortura. Impossível deslembrar que o trabalho dos estudantes de engenharia da computação do ITA encontra fundamento no clima que se estabeleceu no País, quando governantes se empenhavam em aproveitar, sempre que pintasse um clima, para aproveitar-se do corpo de adolescentes. O mesmo tempo em que a produção, comércio, porte e uso de armas de fogo tinha nos gabinetes oficiais seu núcleo de decisão. Esse é o clima, que não pinta por acaso.

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