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Onde erramos?

Pode-se até discordar de alguns pontos abordados por Pablo Ortellado, em seu artigo da última sexta-feira, que O Globo publicou. De uma coisa, entretanto, é difícil divergir. No ponto em que ele destaca ter havido algum erro da esquerda, principalmente da que ele considera esquerda acadêmica. Segundo o articulista, o filósofo que ele chama pragmatista praticamente (por óbvio!) previu o que todos testemunhamos, como um recuo nas conquistas democráticas. A obra em que se baseia o jornalista, editada pela Harvard University Press em 1988, é Achieving our country – Conquistar nosso país, em tradução direta. Nesse sentido, muitos dos ganhos obtidos pelas mulheres, os negros e os trabalhadores norte-americanos teriam sido revogados ou desprezados, em razão de algum erro cometido pelos progressistas, não apenas pelas más intenções dos conservadores. O tema é bem adequado à revisão das posições das esquerdas, mas não apenas na terra de tio Sam. Se de lá emana boa parte da inspiração dos governantes, mundo afora o ideário inspirador de Trump et caterva conta com a contribuição, consciente ou inconsciente, de muitos que um dia se disseram progressistas, em todos os continentes. O Brasil não escapa a esse fenômeno, de resto repetição insossa e despropositada de uma espécie de conservadorismo. Não aquele vinculado à origem de classe do indivíduo, mas insensível à compreensão do mundo à sua volta. Uma contrafação do que seria a percepção adequada da realidade, quando se constata esse que parece fenômeno próprio do Brasil, embora se espalhe por todos os continentes – o pobre de direita. Ora, pelo menos, e no extremo, dois discursos disputam o coração e as mentes dos cidadãos. Um faz da acumulação de bens materiais e do desprezo pelo que Hannah Arendt chamou condição humana, seu roteiro e guia; outro, lembrado ainda da Revolução Francesa, postula a igualdade social como corolário da liberdade individual, por sua vez geradora da fraternidade desejável entre humanos. É no abandono das teses que os pensadores iluministas e seus seguidores defenderam que se pode encontrar a razão do fracasso dos progressistas. Isso não quer dizer que as teses opostas tenham virtudes, mas bem pode contribuir para explicar a conversão de antigos revolucionários (à moda da Revolução Francesa), em defensores e, por isso também, promotores da desigualdade crescente. Nosso discurso é pior que o deles? Nem sempre, se nos concentrarmos apenas na substância, facilmente destorcida, de que dão prova as redes de internet e as fake-news que as divulgam. Daí a importância de atentarmos, pelo menos, para duas circunstâncias: uma, a de utilizar com a mesma eficácia as vantagens que as novas formas de comunicação em massa oferecem. A outra seria a manutenção da coerência e da (perdoem-me, mas não encontro outra expressão) dignidade. Talvez a frase de José Saramago explique melhor: não faria, como adulto, nada que me fizesse envergonhar da criança que um dia fui. Alguns chamam a isso coerência. Outros, maledicentes, dizem que é caturrismo.

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