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Não custa insistir*

Durante minha passagem pelo primeiro curso de mestrado na Fundação Getúlio Vargas/EBAP, depois EBAPE, em 1967, nossa turma do I PRONAPA - Programa Nacional de Aperfeiçoamento de Professores de Administração recebeu a visita de ilustres professores. Os norte-americanos preponderavam, consideradas as escolas daquele país as mais avançadas do Mundo. Dentre esses visitantes, vem-me sempre à memória o professor Fred Riggs (1917-2008). A obra sobre a qual ele discorreu em sua esclarecedora palestra hoje parece-me ter sido certa manifestação antecipatória. Chama-se, em tradução editada e publicada em 1964 pela Editora da FGV, A Ecologia da Administração. Nela, Riggs estabelece relações entre variáveis políticas segundo a forma e o grau em que se apresentavam e combinavam, em diversos países. A análise dessas variáveis serviu ao professor para classificar as sociedades estudadas em tradicionais e em desenvolvimento/desenvolvidas. No percurso entre umas e outras, o autor estabeleceu uma outra categoria, a das sociedades prismáticas. Ele as explicava: aquelas em que há certos sinais de passagem entre as antigas e as modernizadas, em algum grau ou nível que as tornava diferentes entre si. Para identificar o caráter prismático, termo emprestado por Fred Riggs para imaginar a visão do objeto através de um prisma (que concentra em um ponto e refrata na outra ponta), lembro bem que pelo menos três eram os aspectos abordados: a forma de distribuição da riqueza e prestação dos serviços do aparato oficial à população; a rede de comunicações e sua abrangência no território da sociedade estudada; a funcionalidade específica dos órgãos estatais em cada uma das sociedades focalizadas pelo estudioso. Segundo o ponto de vista do professor da Universidade do Havaí, a influência e o peso desses fatores no cotidiano das nações as aproximam mais da concentração (as tradicionais) ou da refração (em desenvolvimento/desenvolvidas). Agora, merece especial atenção o debate sobre a extinção das chamadas escolas cívico-militares, sob o olhar atento do professor norte-americano. Criadas para proteger a pátria (seja lá o que isso significa, nestes tempos de contato direto e imediato entre os povos), certamente não caberia às forças armadas prestar serviços educacionais, excetuados aqueles de escolas direta e permanentemente relacionadas aos fins e objetivos das organizações castrenses. Quando elas se imiscuem em funções para as quais os estados dispõem de órgãos especializados, mais próximos estaremos da concentração. Mais distantes, portanto, da especificidade funcional característica das sociedades ditas em desenvolvimento/desenvolvidas. Já nem levo em consideração os riscos de serem postergadas atividades e ações específicas das forças, quando parte de seus efetivos está ocupada com a construção de estradas, a realização de campanhas fora de seu âmbito original de atuação. Talvez os defensores das escolas ditas cívico-militares nunca tiveram a oportunidade (a felicidade, também) de ler Fred Riggs.

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* Texto anterior, de autoria do editor deste blog, trata dessa importante contribuição do autor de Ecologia da administração, em COMISSARIA, 13-02-2020.

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1 comentário


josemariamendesmj
16 de jul. de 2023

Rousseau em Emílio ou da Educação(1.762)afirmava que as escolas de sua época "educavam para a servidão".

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