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Lula e Trump

Raríssimas, duas manifestações de inteligência de algum dos ditadores brasileiros merecem ser lembradas. Ambas, saídas da boca de Ernesto Geisel, o único deles que parecia um anacrônico nacionalista. Para Ulysses Guimarães, talvez a mais importante liderança da oposição, o militar gaúcho pediu que contivesse seus correligionários radicais. A Geisel caberia a contenção dos radicais ao seu próprio lado. No que diz respeito às relações internacionais, o ditador do período 1982-1986 mostrou sabedoria e equilíbrio muitas vezes ausente nos profissionais da diplomacia. Lembrou Geisel que o Brasil não tinha amigos, mas interesses. Nesse caso, ele mirava nas vantagens comerciais, não apenas nos vínculos ideológicos com as demais nações. Assim, os arroubos muito bem calculados por Donald Trump e certo destempero identificado em falas de Lula fazem lembrar o que o ditador brasileiro recomendou ao Senhor Diretas. Na posição de liderança que ambos ocupavam, era preciso estar de olho atento na realidade maior - o País e toda sua complexidade - e no ambiente (chamemos assim) doméstico, a saber: o Estado brasileiro que a um cabia conduzir; a organização partidária e o Congresso, postos sob a direção do outro. Lula e Trump se veem na mesma situação de Geisel e Ulysses, respeitadas as circunstâncias. Quanto aos interesses mais que às amizades pessoais, que o Presidente norte-americano destacou, vale observar como Geisel encarava a aproximação e o tratamento dado a outras nações. O exemplo de que o ditador brasileiro acreditava no que dizia é atestado por uma decisão que muitos do seu círculo mais próximo recusavam. Quem reatou relações do Brasil com a China foi Ernesto Geisel. Se não se pode ter ilusões quanto aos acenos de Donald Trump, simplesmente desprezá-los não será o melhor.

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