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Interditas

Descobri que as palavras também cumprem quarentenas. Como se precisassem de repouso, tão cansadas de serem proferidas, sem que algum ouvido estivesse aberto para elas. Desaparecem das conversas coloquiais, somem sempre que duas pessoas se encontram para tratar dos problemas comuns. Dos dois interlocutores ou da assembleia reunida. Às vezes, ocorrem de voltar. Aí, então, são tratadas como zumbis. Se antes não havia oiças dispostas a recebe-las e processa-las, agora, são recebidas e insultadas. À direita e à esquerda, são enxotadas, perseguidas, afastadas, como se sua presença, ainda que mantidas em absoluto silêncio, pudesse causar algum mal. Duas delas parecem embebidas no mais mortal veneno, tanto que são escorraçadas, mandadas para os quintos do inferno. Para voltar, quando já quase todos esqueceram seu significado. Observem-se, por exemplo, as discussões e comentários sobre as primeiras medidas de Donald Trump, em seu segundo mandato, e o debate sobre a despesa pública do Brasil. No primeiro caso, a palavra proscrita ganha concretude nas práticas apontadas. A palavra mesma, com todas as letras e sílabas no devido lugar, nunca aparecem. E, quando alguém ousa denominar ou classificar as ações a ela correspondentes, muito cuidado - a casa pode desabar sobre o infeliz declarante. Talvez o cuidado diplomático exija esse silêncio reverencial ou obsequioso. E a palavra certa - chantagem, é mantida debaixo do encharcado ambiente em que punhos de renda sequer se sujam. A outra palavra na verdade são duas, omitidas, sempre que se deseja tirar dos que nada têm, para manter intocado o patrimônio dos que sempre a tiveram. Refiro-me à grande fortuna. Os que reclamam das despesas publicas, não raro, são os mesmos que rejeitam pagar (o que traz à cena outra palavra proscrita - sonegação) o tributo que reduziria a iníqua acumulação da riqueza. É como se, varridas para baixo da mesa, desaparecem do nosso convívio a chantagem recorrente e a grande fortuna, não se sabe ao certo como produzida.

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1 comentário


swolffgeo
15 de fev. de 2025

Tudo se resume à ausência de reação.

Mas na verdade se trata de pusilanimidade.

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