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Eternos ganhadores

Desdenhados os antecedentes e destacadas as inevitáveis consequências da substituição da escala 6 X 1, as discussões sobre a nova jornada de trabalho estreitam os bons resultados previstos. Resumem-se estes à probabilidade de aumentar nos trabalhadores o desejo de bem cumprir suas tarefas e, assim, permanecerem mais tempo nos respectivos postos. Especialistas garantem que isso ocorreu em numerosos países, não havendo razão para se esperar diferente, nas terras da Santa Cruz. Previsões nem sempre são justas e aplicáveis, quando a História é deixada de lado. Menos pela suposta rigidez do material de que se nutre o cotidiano da sociedade, mas pelos interesses ocultos por propósito e cálculo. Quem se der o trabalho de olhar para trás e trazer dele a percepção da essência relacionada ao fenômeno visível, sabe que otimismo demasiado interessa pouco. As discussões sobre a abolição do regime escravocrata hão de ter ensinado boa parte dos brasileiros, como podem ter passado em branco a tantos outros. Alguns, por pura ignorância; outros, por verem contrariados seu egoísmo e a perversidade que o alimenta. Assim, o que aparentava seguir tranquilamente o trecho legislativo do Congresso, na apreciação e votação nas duas Casas, não pode ser dado como favas contadas. Vários são os expedientes postos à disposição dos congressistas, tudo ao sabor de suas conveniências pessoais, da orientação dos segmentos com os quais assumiram compromissos (alguns fazendo seus mandatos dependentes da obediência sempre cobrada), até da oportunidade.  Mais tarde, a fixação do salário-mínimo não se cercou de ambiente diverso. Grande parte das empresas fecharia, o mercado de trabalho ofereceria menos vagas, a miséria campearia, de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Seguiu-se a criação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço- FGTS. O ônus imposto aos patrões pretextou intenso combate, em que não faltaram as chantagens habituais e as ameaças de praxe. O País vai à bancarrota, era o que se dizia. Nada disso aconteceu. O que se viu, ao contrário, foi movimento ascendente na produção, acumulação exponencial de lucros e concentração da riqueza maior que a vigente antes dessas medidas. É no terceiro desses indicadores que se resume uma das duas consequências prováveis da aprovação da nova escala. Nos últimos dias, isso se torna mais aparente, pois já começam a circular interpretações que apontam queda na produção, desemprego e outros efeitos sempre rejeitados pelos que retêm a riqueza nacional. A substituição da escala, se afinal aprovada, ou forçará o consumidor a pagar mais pelo produto, ou terá que ser mantida pela redução dos lucros fabulosos registrados. Ninguém olha para os números que traçam o retrato da desigualdade, situação em que quem ganha nada pode perder; quem perde, cada dia perderá mais. Os que ganharão mais tempo para outras atividades deixarão nos supermercados e no comércio em geral o que poderia levá-los a ter o tempo fora do trabalho a seu favor. Sem reduzir a desigualdade, nada melhorará para a maioria.

 

 

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