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Sem enxugar gelo

Faz pouco mais de uma década, o Brasil foi considerado fora do mapa da fome. Os brasileiros estavam se alimentando mais e melhor. Ainda que sujeito a salários indignos, miseráveis mesmo, os trabalhadores contribuíam para o salto da produção, industrial e agrícola. As tecnologias introduzidas no campo, se resultaram em tornar o País um dos três maiores exportadores de proteína, não eliminaram todos os postos de trabalho, como parece o mais ansiado propósito de certos setores. O esforço industrial se vinha mantendo, ainda que o salário pago aos industriários se mantivesse longe da remuneração justa e digna. A acumulação prosperava, cada dia concentrando-se em menos mãos. As políticas públicas, tímidas e insuficientes, compensavam até certo ponto a ameaça de fome que rondava a maior parte da população pobre. Bastaram seis anos para devolver-nos ao mapa da fome. As políticas compensatórias e tudo o que implicasse benefício para os excluídos foram desativadas, chegando-se ao ponto atual. É identificado, sem rodeios, o processo de desindustrialização, em cujo bojo viceja o mais ameaçador desemprego. Ao capital é preferível obter ganhos na bolsa, no cassino planetário. A teimosia da manutenção das atuais taxas de juros não aconselha pensar diferente. Passado o período em que a sociedade brasileira passou pelo maior pesadelo histórico de que se tem conhecimento, mais uma vez a esperança venceu o medo. Por escore apertado, mas o venceu. Daí que ao terceiro governo de Lula caiba esforço muito maior do que foi exigido em seus dois mandatos anteriores. Um trabalho de quem enxuga o gelo, como um Sísifo da era tecnológica. Mais uma vez, começam a (re)aparecer os resultados. Não é que a mesa de todos os brasileiros já tenha mais pratos ou que estejam asseguradas as três refeições prometidas em campanha. Os números, tão interessantes para os que resumem a Economia a um exercício meramente matemático, já o dizem. Pouco a pouco, os integrantes da base da pirâmide econômica e social sentem desapertar-lhes a corda no pescoço e levam a ONU a prever dias melhores, e não tão longe quanto anunciam os profetas do Apocalipse. Os cuidados deverão ser redobrados, se ao final de 2026, desejarmos mandar para bem longe a fome e os que a alimentam, eliminando políticas compensatórias em curso e outras, que é justo esperar sejam adotadas pelo atual governo.

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