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Eleições e cumplicidade

As eleições periódicas e regulares são tidas por muitos cidadãos como o bastante para caracterizar a democracia. Essa é visão demasiadamente reduzida do fenômeno político, aquele a que Platão e Aristóteles emprestaram o melhor de seu pensamento. A atribuição da essência política ao homem, no entendimento deste blogueiro, sugere estar na vontade individual de cada cidadão (tanto quanto na vontade coletivamente compartilhada) o grande traço a distinguir-nos dos outros animais. Aqueles que nossa arrogância e autossuficiência chamam inferiores. Dotados de instintos todos somos, andemos com duas ou quatro patas ou usemos as asas para nos deslocar, como o determina a natureza. Só o chamado animal superior, inteligente como também dele se diz, é dotado de vontade. Em outras palavras, sua vida e sua conduta não resultam de uma determinação apenas natural. Mais fácil fica entender isso, porém, se percebemos a permanente busca da imortalidade. Essa busca, como se sabe, não é coisa moderna, sendo que agora a Ciência e a tecnologia dela resultante levam-nos a esperar que a morte física do indivíduo passe a ocupar terreno de sua própria decisão. Tudo isso foi escrito até aqui, para dizer que, não esgotando as eleições o elenco de qualidades da democracia, elas são o ponto de convergência e culminância desse processo que Churchill dizia ser mal, salvo todas as demais formas de organizar a vida e as relações da e na coletividade. O cotidiano dos cidadãos é marcado por manifestações políticas, conscientes ou inconscientes. Nem todos, porém, se apercebem disso. Alguns chegam a alegar acúmulo de tarefas diárias, a impedir-lhes de refletir sobre aspectos importantes - às vezes, decisivos - de sua própria vida. Admita-se, absurdo que seja, essa possibilidade. Haverá, porém, antes de qualquer eleição, um momento disponível para refletir sobre as consequências do voto de cada um. Aí, lembrando que só o animal dito superior dispõe do livre arbítrio, devemos todos dispensar esse momento (que ocorre, no Brasil, a cada biênio) para escolher o candidato que faremos nosso representante. Porque, neste caso, o voto equivale à procuração que se dá a um advogado, para representar-nos diante da Justiça. Quanto maior a afinidade de nossos modos de ver o mundo e a Vida com as propostas do candidato, mais esse nos estará representando. Se escolhemos uma pessoa bem-intencionada e preparada para nos representar, melhor. Nunca devemos esquecer que o candidato, por pior que ele seja como ser humano e cidadão, ele nunca terá mandato, se não obtiver os votos necessários para conquistá-lo. Em suma: somos cúmplices e parceiros dos que elegemos. Essa é uma, talvez a maior, das vantagens da democracia.


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