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CINEMA E FILOSOFIA EM SETE CONCEITOS-IMAGEM

José Alcimar de Oliveira*


A relação cinema-filosofia é a relação da imagem com o conceito. Mas no próprio conceito existe uma relação com a imagem, e na imagem uma relação com o conceito; por exemplo, o cinema sempre quis construir uma imagem do pensamento, dos mecanismos do pensamento. E ele não é nada abstrato para isso. Ao contrário (Deleuze).


01. Inteligência de espírito, crítica e bom humor seguem como

características da esquerda. A extrema-direita e boa parte da direita se

alimentam e vivem da afronta à cultura, da falsificação da história e da

destruição da memória. Por isso, sua hostilidade ao riso, à ironia e à

liberdade de pensar, manifestações superiores do ser social. E uma das

consequências desse campo de resistência cognitiva é a limitada

compreensão do devir filosófico instaurado pelo espaço-tempo do cinema.

 02. Cinema é movimento, inclusive imóvel, para aqui lembrar a

força da dança imóvel do genial Manuel Scorza. Mas nem tudo que se

movimenta na tela é cinema. No cinema o movimento mostra, conforme

Deleuze, que as coisas têm olhos. Eles sãos constitutivos da imagem. O

olho “é a visibilidade da imagem”. Quase a lembrar Goethe, para quem “o

olho deve sua existência à luz”. Mas há diferença entre o olho da imagem

que ilumina e aquele que ofusca. Há cegueira produzida pelos olhos da

imagem.

03. Cinema é devir estético que faz pensar, que remove

preconceitos e faz a ponte bachelardiana entre imaginação criadora e

descoberta científica. Há muita distância entre cinema e indústria cultural

da produção hollywoodiana. Não faz parte da estética do cinema, de seu

devir reflexivo, o movimento que alarga e fortalece o circuito mercantil do

entretenimento e da produção da distração concentrada, a disciplinar

coletivamente a sensibilidade da inteligência e a cognição do sensível.

04. Ao cinema vale também o que escreve o mestre Milan

Kundera, ao afirmar que a única moral da arte do romance é o

conhecimento. Cinema, em sentido próprio, é conhecimento, crítica e

oposição. Há muito filme vazio de cinema e refratário ao conhecimento,

notadamente ao conhecimento filosófico. O resto, para recorrer ao

iconoclasta Millôr Fernandes ao investir contra a imprensa dominante e

subalterna, está mais para armazém de secos e molhados. Filme-efeito de

bilheteria cretiniza. Cinema-arte mobiliza.

05. Para valer mais do que mil palavras, a imagem exige um

duplo movimento, que vai do conceito à imagem e desta ao conceito.

Apartada do conceito a imagem vê o mundo com os olhos do preconceito e

imprime no olho que vê os preconceitos do mundo. Num texto sobre a

televisão, ainda bem antes dos laços das redes sociais, Eduardo Galeano

escreve: “a televisão mostra o que acontece? Nos nossos países, a televisão

mostra o que ela quer que aconteça e nada acontece se a televisão não o

mostra”.

06. O cinema como imagem-movimento e imagem-tempo é um

espaço filosófico da formação estética do ser social. Ao contrário da tela do

filme, que fragmenta o todo em partes totalitárias, o cinema objetiva as

partes como uma totalidade orgânica que transfigura o real na tela e no que

transborda da tela. No cinema, ao contrário do filme que imobiliza os

círculos cognitivos, mesmo o que se apresenta como imóvel aos olhos está

sempre presidido pelo movimento dialético do pensamento e do pensado.

07. Num breve escrito intitulado Sobre a imagem-tempo, de 1985,

Deleuze escreve que “a maioria da produção cinematográfica, com sua

violência arbitrária e seu erotismo imbecil, testemunha uma deficiência do

cerebelo, não uma invenção de novos circuitos cerebrais”. Numa

conclamação filosófica que segue atual, e em combate à “deficiência

organizada”, recorre à estética do cinema para dizer que “criar novos

circuitos diz respeito ao cérebro e também à arte”. Viva o cinema que

pensa!

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* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, onde cursou e obteve o mestrado e o doutorado. É também teólogo franciscano ex corde e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana – CE). Desde Manaus, AM, em janeiro de 2026.

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