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A VELHICE AMARGA

Vez ou outra encontro velhos amigos, mais velhos do que eu, mas que os conheço há muito tempo. Para minha surpresa, alguns deles não carregam o fardo da idade, como era de se esperar, porém andam com uma nuvem de amargura sobre suas cabeças.

Rabugentos, lamentam a vida que viveram e tudo não valeu a pena, e a alma se tornou pequena. Agora, os sonhos se fizeram pesadelos e nega-los virou um troféu de amargura e lamento.

São velhos amargos vivendo uma vida de negação da sua própria vida. É como se tudo que fizeram foi errado ou, pior, não reconhecem virtude alguma nos seus feitos. O tempo se fez um vendaval de insignificância.

Ao encontrar um desses amigos, ou amigas, ouço com respeito e atenção, mas como dói vê-lo com tanta amargura e desesperança na alma. A vida podia ser bem melhor.

Mas nem todos envelheceram assim e muitos vivem os versos de Chaplin: O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza...

Na minha caminhada de vida, tenho a grata alegria de continuar compartilhando sonhos e utopias com velhos amigos. Eles carregam poesia no abraço e no sorriso e se orgulham da vida vivida.

Outro dia uma amiga lembrou Martin Luther King: melhor tentar e falhar que preocupar-se e ver a vida passar. É melhor tentar, ainda que em vão, que sentar-se fazendo nada até o final.

Lembrou altiva, orgulhosa, como quem continua caminhando na mesma trilha da esperança e da construção.

Como é bom ter amigos e amigas que não desistiram da vida ainda vivos.

Aos que balbuciam o lamento do que fizeram, a tristeza de uma velhice sofrida, amargurada e sonolenta. A vida não pode ficar pra trás. Aí já é a morte.

Como canto de esperança aos que ainda permanecem vivos e se consomem na inércia e na cegueira, peguem uma Cora Coralina:

"Faz de tua vida mesquinha um poema.

E viverás no coração dos jovens e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.

Toma a tua parte."


Lúcio Carril

Sociólogo

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