A lógica de Donald Trump
- Professor Seráfico

- 28 de set.
- 3 min de leitura
Republicano é um agente da História, mas também é um sintoma dos nossos tempos. Ele um dia sairá das nossas vidas, mas o trumpismo, provavelmente, não
Tony Volpon*
“O que passa pela cabeça deste homem?” deve ser hoje a pergunta mais comum entre políticos, empresários e qualquer pessoa prestando atenção ao que está acontecendo com a economia global. Uma das dificuldades de responder a pergunta é a grande antipatia — chegando ao ódio — que boa parte do mundo sente por Trump, especialmente pela forma agressiva e desrespeitosa com que ele tem tratado até os mais próximos aliados dos EUA.
Mas erra quem se deixa levar pela emoção ou quem acredita que Trump é um pesadelo que deve acabar com sua saída da cena política e, assim, voltaremos à normalidade. Trump é um agente da História, mas também é um sintoma dos nossos tempos. Ele um dia sairá das nossas vidas, mas o trumpismo, provavelmente, não.
Além disso, traçar uma estratégia coerente de como lidar com os EUA tem que levar em conta dois outros fatores. Primeiro, a concorrência secular deflagrada pela ascensão econômica e tecnológica chinesa — temos em Xi Jiping o outro grande agente histórico dos nossos tempos. Segundo, e intrinsecamente ligada ao primeiro, a revolução tecnológica, econômica e social devido ao surgimento da inteligência artificial que está somente no seu início.
Contextualizar tudo isso é um desafio analítico da maior complexidade, mas alguns parâmetros já podem ser definidos e devem ser reconhecidos. Começamos pelo sentido político do trumpismo (deixaremos as questões sobre a China e a inteligência artificial para futuras colunas).
Trump é Trump desde os anos 80. Podemos acusá-lo de várias coisas, mas não de incoerência em suas crenças fundamentais. Sua posição anti-imigração e o apoio à tarifação de importações não são novidades. Mas ninguém o levou a sério como político durante várias décadas. Sua surpreendente vitória em 2016 e a menos surpreendente —mas mais consequente —vitória em 2024 mostram que quem mudou não foi Trump, mas os EUA na última década.
É um lugar comum acreditar que o sistema internacional pós-derrocada do comunismo soviético inaugurou um período de globalização regido pelo interesse dos EUA, uma Pax Americana para os americanos. O que o trumpismo reconheceu é que essa globalização foi na verdade em benefício de uma pequena elite concentrada em alguns setores e geografias. A apropriação dos ganhos e divisão de custos foi altamente desigual, e não por acaso os ganhos se concentraram nos bastiões progressistas nas duas costas do país, em cidades como Nova York, Los Angeles e São Francisco.
É isso que gera ressonância política para sua oposição à imigração, o agressivo uso de políticas tarifárias para industrializar a economia e os ataques aos “bastiões” institucionais da elite progressista, como as universidades. Esse populismo econômico acaba se associando a um nacionalismo “nativista” pela crença de que a elite progressista desdenha valores tipicamente americanos, pregando uma visão cosmopolita neutra que não admite julgamento de valor entre etnias, culturas, religiões e “estilos de vida”. De fato, uma parte importante dessa elite eleva os “oprimidos”, definidos por uma lógica interseccional, como sendo superiores aos “opressores”. Isso tem gerado uma forte contrarreação — especialmente no eleitorado masculino — ajudando a definir o trumpismo como uma peculiar guerra de classes com fundamento econômico e cultural.
Não é nada difícil apontar para as muitas contradições de um bilionário do setor imobiliário supostamente lutando a favor da maioria oprimida. Afinal, Trump não acabou de aprovar uma lei orçamentária com corte de impostos para os mais ricos cortando recursos direcionados ao setor de saúde? Sim, e essas contradições serão fortemente exploradas pela oposição nas eleições parlamentares e estaduais em 2026. Mas por mais que tais contradições sejam verdadeiras, elas também são racionalizadas dentro do trumpismo e não mudam o fato de que sua crença de representar um nacionalismo populista America First vai guiar as decisões deste governo.
Reconhecer essa visão de mundo, sem necessariamente concordar com ela, é hoje algo necessário para lidar e negociar com os EUA. Algumas abordagens terão mais chance de sucesso do que outras, como já evidenciamos nas recentes caóticas negociações sobre a questão tarifária. Vários países têm achado brechas para minimizar o dano efetivo.
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