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Vox populi, Vox dei: ou voz do povo sob a ideologia do fator-deus


José Alcimar de Oliveira*

A filosofia é uma batalha contra o enfeitiçamento de nossa inteligência por meio da linguagem (Wittgenstein).


              01. A voz do povo é, de fato, a voz de Deus? Ou mesmo voz do povo? Quando o povo fala, quem fala pelo povo? O quanto há de autonomia e de heteronomia na fala do povo ou atribuída ao povo, como se do povo fosse? Sob o registro da Filosofia não cabe ao conceito o poder de definir, porque o conceito, bem o disse Deleuze, é apenas ferramenta (mediação teórica) para produzir significado. Faz filosofia rasa, ou filosofia nenhuma, quem toma definição por conceito. Quem assim procede, por ignorância ou má fé, apenas reproduz preconceitos. Produzir conceitos (mais uma vez Deleuze) está entre as principais tarefas da Filosofia.

               02. O mundo, por sua estrutura complexa (seja subjetiva, objetiva ou social) demanda mais conceitos do que definições. A boa consciência (da ignorância sobretudo) é sempre habitada por definições. A propósito, Nietzsche atribui à Filosofia o trabalho de subtrair à estupidez sua boa consciência. É preciso dizer de uma vez por todas: definição não é conceito.  Quem define limita e não é da natureza do conceito limitar a compreensão do mundo ou reduzi-lo ao alcance mecânico da definição. O conceito move-se pelo caminho da contradição, porque o princípio do contraditório atravessa o mundo, sobretudo o mundo do ser social.

               03. Para a teologia ortodoxa (na qual não me abrigo), Deus é o único ser isento de contradição e de composição, o que decorre de sua dita natureza imaterial, compreendida como unidade absoluta. É necessário dizer que a metafísica divina não comporta dialética, menos ainda contradição, sempre associada ao falso, nesse mundo formatado pelo princípio lógico da identidade. O Deus da compreensão mosaica, mais parmenídico do que heraclítico, abomina a negação e se define como Aquele que é. Já Mefistófeles, segundo Goethe, se define antes como o ser que está sempre a se negar. Sua ontologia é a da negação e da contradição personificadas. Jesus de Nazaré, embora nada tenha a ver com Mefistófeles, é ele mesmo, segundo palavras do velho e sábio Simeão, um sinal de contradição: “Eis que este menino será causa de queda e reerguimento de muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição” (Lc 2,33). Joaninamente é preciso dizer que o Verbo se fez carne e igualmente contradição. Em Jesus de Nazaré Deus se liberta do edênico (e falso) mundo da identidade imóvel, ou da unidade do idêntico. Em Jesus Deus se torna princípio dialético da ação, como ortopraxia, algo incomensurável à ortodoxia dos fariseus e doutores da Lei, ortodoxia que impedia a unidade dialética entre Deus do Povo e Povo de Deus.   

               04. Porque necessariamente opera sob registro filosófico, o conceito é obra de um maquinismo dialético cujo devir se objetiva no permanente trabalho de produzir significados. Sem o trabalho (paciente e filosófico) do conceito é impossível jogar luz sobre as sombras que cobrem os conteúdos abrigados sob o termo povo. Sob qualquer campo do conhecimento produzido pelo ser social, povo é da classe do que podemos denominar de um conceito-armadilha, mais armadilha do que conceito.   O quanto há de povo na fala do povo ou na fala de quem fala pelo povo? Haverá saída fora dos caminhos da Filosofia (não da filosofia acadêmica) para o povo escapar das armadilhas dessa definição sob capa de conceito? Todas as formas de dominação (política, religiosa, cultural) encontram abrigo nessa caverna ideológica denominada povo. Jesus de Nazaré está entre as vítimas desse conceito-armadilha. Embora tivesse consciência disso, e chegasse a afirmar, ancorado no profeta Isaías, que o povo o honrava com os lábios, tinha o coração (a consciência) longe dele e que era inútil (falso) o culto que lhe prestava, pois estava envenenado com mandamentos humanos (não tão humanos) (cfr. Mt 15, 8-9), Jesus de Nazaré, radicalmente humano como era, preferiu não afrontar a (falta de) consciência do povo. Como estava num embate desigual, tombou, mas sem capitular por adesão ao programa de seus inimigos.

               05. A velha máxima mundus vult decipi, ergo decipiatur (o mundo quer ser enganado, que seja enganado) também atribuída ao Cardeal Carlo Caraffa, religioso de duvidosa índole e protegido do Papa Paulo IV, continua a presidir e definir os destinos da nossa miséria política nacional. Mesmo que desconhecida por boa parte da reconhecidamente tosca classe dominante brasileira, essa máxima adquiriu exitoso estatuto operatório nessa República proclamada sem povo e contra o povo. Quanto mais destituído de consciência de classe, mais vazio é o conceito povo. Um conceito-armadilha, insisto, e presa fácil dos artifícios das quadrilhas políticas. Nada a ver com as quadrilhas da spinozista alegria junina. Os Estados, como escreve Agostinho na obra De Civitate Dei, quando apartados da justiça, convertem-se num bando de ladrões (remota itaque justitia, quid sunt Regna nisi magna latrocinia). Se faltava consciência de classe ao povo do tempo de Jesus, e ainda que venham classificar como anacronismo recorrer a esse conceito para pensar a Palestina daquele tempo (sob poder da ortodoxia judaica e domínio do Império Romano), é inegável a existência, à época, de uma sociedade de classes, e da consequente injustiça social. E dessa estrutura que deriva a dupla condenação à morte de Jesus de Nazaré, religiosa e política.     

               06. Por que recorrer a Deus (aos Deuses ou à Natureza) para atribuir ao povo uma voz que, mesmo dita pelo povo, nem sempre nada de divino ou verdadeiramente humano expressa. No chamado Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, Jesus de Nazaré, conforme o relato bíblico, entra de forma triunfal em Jerusalém e é efusivamente aplaudido pelo povo. Em pouco menos de uma semana, na sexta-feira seguinte (a Sexta-Feira da Paixão do Senhor para a liturgia católica), o mesmo povo que o aclamara como Rei vocifera em coro exigindo sua crucificação. Havia Deus nessa voz? Deus ou o que José Saramago denominou de Fator-Deus? Saramago, num excelente artigo sobre o ataque às Torres Gêmeas, publicado em setembro de 2001, recorre ao conceito Fator-Deus para compreender aquele acontecimento que marcou de forma geopolítica o início do século XXI, em que se acelera o devir do capitalismo bélico e, em consequência, o colapso ambiental e a barbárie social. Tanto quanto o conceito povo, Deus seria também um conceito-armadilha?

               07. Voz do povo, voz de Deus? Não, a voz do povo é a voz do povo, e também da inconsciência, quando falta ao povo consciência de classe. Por que o povo, o povo dos pobres, que de Jesus de Nazaré só recebeu acolhimento, generosidade e compaixão, permitiu que sua consciência fosse impulsivamente guiada pelo Fator-Deus (para voltar a esse conceito da lavra do genial Saramago, ateu convicto e honesto) e desse vazão àquela necrocracia popular e antipascal? Páscoa implica a ideia de libertação, saída.   E prefiro o termo saída ao conceito de liberdade (outro conceito-armadilha), contaminado e comprometido pelo ideário da dominação burguesa. Afinal, ao tempo de Jesus de Nazaré já teríamos a figura embrionária do hoje denominado pobre de direita? Pobre de direita ou pobre de direitos? Será possível o trânsito da condição de classe do pobre de direita (e de direitos) à consciência de classe do pobre como classe sem a necessária mediação da organização e da formação política, sem o que é impossível pensar em consciência de classe?

* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, onde cursou e concluiu o mestrado (em Educação, 1998) e o doutorado (em Sociedade e Cultura, 2011). É teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões (em Manacapuru, AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana, CE). Manaus, AM, abril de 2026. Votos de Páscoa como Saída!

 

 

 

 

 

                                                      

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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