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Potencialidades e potássio

22 de mai. de 2023
3 min de leitura

A exploração do potássio extraído das reservas encontradas em território amazônico não carece de razões e argumentos econômicos positivos. Isso, porém, não é tudo. A rigor, não diz nada. Porque não é da necessidade de reduzir a dependência do Brasil, dada a potencialidade do minério na produção de fertilizantes, que tratamos. Se a Rússia e a Belorus fornecem 98% dos fertilizantes consumidos no Planeta, algo tem que ser feito, para reduzir nossa dependência ou até tornar-nos também exportadores. Não a qualquer custo! Não parece razoável reproduzir toda uma história econômica que nos trouxe à situação de risco ora experimentada. Situação em que testemunhamos o comprometimento do futuro da região e de suas populações. Seria contradição inaceitável emprestar apoio ou colaboração aos que pretendem extrair e comercializar o potássio, antes de assegurar clara e efetivamente a sobrevivência digna (não menos que isso!) dos indígenas, quilombolas e ribeirinhos. Empreendimentos anteriores utilizaram os mesmos pretextos - criação de empregos, melhoria do IDH, melhores condições de alimentação, habitação, educação, saúde, lazer etc. -, sem que o resultado tivesse sido mais que levar a insegurança e a violência aos mais remotos locais da região. Aqui e alhures, é forçoso dizer. Além de agravar problemas crônicos com que as populações há muito convivem. Se olharmos a face beneficiada pela exploração seja lá do que for, o panorama ganha contornos de tragédia. Em si mesma, revelada na profunda desigualdade que o índice Gini (que dá o grau de acumulação e distribuição da riqueza) expressa. Esse o processo a que se tem assistido na Amazônia, de resto, algo muito pior do que todas as atrocidades, esbulhos, violências praticados. Até alcançar o nível do extermínio. Daí a importância relativa da participação da região na economia nacional vir caindo, quanto mais se intensifica a exploração dos recursos naturais nela depositados. Não tem sido diferente, de igual modo, a participação dos trabalhadores das cidades, dos campos, do beiradão na massa salarial que (mal) paga seu trabalho. Nem se fale dos novos riscos a que serão expostos os habitantes do interior do Amazonas, mesmo se o canto de sereia entoado pelas tais agências reguladoras tenta esconder que sempre acaba por proteger os entes supervisionados, não os que estão do outro lado do balcão. Lembremos todos que o trabalho escravo ainda está presente no País, 235 anos após a chamada Lei Áurea. E que Tom Phillips e Bruno Pereira foram assassinados pelos que veem os habitantes originais como estorvos à sua ganância. Não têm sido poucos os pretos sacrificados, seja lá o motivo/pretexto apresentado. Por enquanto, a discussão sobre o potássio e os interesses e apetites por ele despertados restringe-se a pouquíssimos segmentos da sociedade. Antes de qualquer outra iniciativa, que se promovam discussões, estudos e pesquisas de que as populações atingidas não sejam mantidas distantes. Nem se esqueça da crescente restrição de recursos públicos para as entidades oficiais de ensino e pesquisa, como forma de tornar atraente o apoio privado a professores e pesquisadores submetidos ao sistema de produtividade que os torna mecanismo subsidiários do modelo econômico que não ajudaram a formular, quando não se mostraram hostis, por muitas e muito fundadas razões. Só depois disso se chegará ao ponto em que serão evitadas as duras e pesadas penas pagas pelos que, sem receber qualquer benefício, são as principais vítimas do processo econômico.

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