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Triste e trágica figura

Sempre considerei inadequado o nome pelo qual alguns incautos mencionam uma das maiores criações da literatura universal. Refiro-me ao injusto apelido que mal-intencionados atribuem a Dom Quixote de la Mancha - cavaleiro da triste figura. Ao contrário, o imortal cavaleiro produzido pelo gênio de Miguel de Cervantes nada tem de trágico, por isso que nada é triste na sua história. Mesmo quando frustrado na intenção de promover a Justiça e liquidar a desigualdade, Alfonso Quijano nada tem de trágico. Trágicos e ridículos são outros, absolutamente desprovidos de qualquer das qualidades que distinguem os seres humanos dos outros animais. Aqueles que, na contramão dos caminhos do autoproclamado cavaleiro, pensam-se dotados de poder e virtudes de que raros de seus contemporâneos dão testemunho afirmativo. Os que, desdenhando da inteligência dos outros, acabam por revelar toda sua brutalidade e seu perfil energúmeno, rematados pela mais ostensiva estupidez. Os que, desprovidos do saber e do poder, ainda posam de autoridade, mesmo aquela que julga dispensáveis o verniz intelectual e o brilho que só a moral empresta. São indivíduos assim que, proclamando falso amor à pátria, ajoelham-se diante de pavilhões de outros estados; recorrem a dignitários estrangeiros, em busca do poder que seus compatrícios lhes negaram. Figuras assim, marcadas pelo déficit de virtudes impossível de esconder, é que trazem consigo a tristeza. Espalham-na, mesmo se, pessoalmente, a tragédia lhes satisfaz o ego doentio. Ainda quando concorrem para a morte de centenas de milhares de seus compatrícios, tais trágicas figuras comprazem-se com a tristeza alheia e portam na face a marca dos que odeiam a Vida e cultuam a morte. Nada mais que o avesso de Dom Quixote.

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