Triste e inútil, desnecessário e inoportuno testemunho
- Professor Seráfico

- há 2 horas
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O sistema econômico fortalecido desde o fim da Segunda Grande Guerra dá sinais de esgotamento. Não será a primeira vez em que a sociedade humana experimenta expressiva mudança de cenário. Poderemos, por isso e pelo impacto sobre o Planeta e seus habitantes, estar diante de fatos que, encadeados, anunciam uma nova Idade. Desde a Antiguidade, fatos determinantes autorizaram os estudiosos a dividir a História. Ainda que haja resistência a ver sinais de avanço durante a Idade Média, em seu seio foram tecidos os acontecimentos que fizeram surgir o período que se chama Idade Moderna. Da mesma forma, as forças sociais levaram ao que hoje se chama Idade Contemporânea. Quem ousou afirmar que a História acabara, sentiu-se na obrigação de confessar a inexatidão de sua própria sentença. Francis Fukuyama, quem o disse, posteriormente negou-o. Há quem nos veja em pleno período pós-modernidade, sem que o sentido da expressão tenha sido suficientemente esclarecido, de modo a permitir compreensão e interpretação minimamente satisfatórias. Convivem com os avanços tecnológicos, ideias antiquadas, não raro herdadas dos mais primevos tempos. O uso da força em contraposição ao argumento, o aprofundamento e alargamento da desigualdade, como resposta à acumulação excepcional da riqueza etc. Poucos se têm dado conta das causas, provadas umas, apenas supostas outras, de termos chegado ao estado de coisas e relações indicativos das mudanças para as quais não nos sabemos preparados. Ou, pelo menos, suficientemente preparados. Os que nascemos durante a Segunda Grande Guerra, o que quer dizer, chegamos ao mundo nas oito últimas décadas, temos testemunhado fatos que sequer nossos pais jamais imaginariam. Tantas as mudanças ocorridas, tanta a velocidade com que elas chegam, que à ignorância anterior (e interior) parece impossível absorver, captar e apreender toda a realidade em volta. Os avanços, no entanto, têm servido mais à desumanização do descendente dos chimpanzés que à crescente humanização dos animais que se dizem superiores. Não faz muito tempo, morria-se sem sequer termos chegado ao diagnóstico do mal que matava tanta gente. O deslocamento de um a outro ponto de cidades e aldeias constituía-se numa aventura cercada de riscos e incertezas, além de lenta. Desde o mercantilismo, insinuavam-se novas formas de produção de bens e de apropriação de riquezas naturais em territórios às vezes muito distantes. As grandes navegações, então, construíram impérios, forma de gerenciar os negócios aquém e além-mar. A acumulação vinda desde lá parece ter se esgotado, neste primeiro quarto do século XXI. O sistema econômico que a propiciou, ampliou a desigualdade, levando-o à quase impossibilidade de mantê-la. Maior a riqueza acumulada por ínfima parcela da população mundial, maior o número dos que têm fome, adoecem, vivem ao relento, adquirem males crônicos – e morrem. A riqueza, produzindo a morte. Ainda agora, o mais recente dos impérios claudica, paradoxalmente apoiado em muleta que poderá dar fim à Terra. Atraindo para si todos os olhares, depois de tentar apropriar-se de – além das riquezas materiais – corações e mentes, o decadente império do Norte vê-se rejeitado pela maioria dos governos constituídos em todos os continentes. Dispensando-se de apresentar qualquer argumento, porque este só pode ser produzido pela razão, não pela força bruta. Já não se pode arrastar mulheres pelos cabelos, nem a clava tem força maior que a caneta. Assim, a bomba atômica. A experiência, fruto da ambição, da arrogância e da perversidade do império moribundo que matou em Nagasaki e Hiroshima, desaconselha o apoio, a tolerância sequer, em relação aos pretensos senhores da Terra. É isso o que mexe com o governo dos Estados Unidos da América do Norte, levando-o à duplamente patética situação: conceitual e originalmente, dolorosa; vulgarmente, obra de indivíduos tolos e ínscios. Não parece tão difícil encontrar a maior causa dos fenômenos a que assistimos, mas para fazê-lo seria necessário rever conceitos, fazer séria e inteligente reflexão. Desde que o Mundo, sob a direção de uma só verdade (a neoliberal, como se chama o capitalismo de nossos dias), exerceu e abusou do direito de impor sua vontade à sociedade mundial, retrocedemos alguns séculos. Deixaram-se de lado as ideias iluministas, preferindo a escuridão; no lugar da solidariedade, exerceu-se o mais abjeto egoísmo; mesmo os templos (?) passaram a acolher e multiplicar o discurso do ódio, quando o amor seria desejável. Somos testemunhas, portanto, de uma sociedade em desfazimento. Se isso ocorrer, quando – e se, admitamos – o dedo de Donald Trump detonar a primeira bomba, se terá cumprido a sina da acumulação e do egoísmo, sob a regência do desamor. Triste e desnecessário, inoportuno e inútil testemunho. Não haverá a quem o transmitir.

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