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TENTEI MATAR A MAMÃE COM FEITIÇARIA

há 20 horas
3 min de leitura

Terminou o período eleitoral e meus poucos e fiéis leitores estão esperando um texto político. Como meu candidato ganhou a eleição, vou relaxar escrevendo uma crônica sobre minha infância.

Fui um garoto que se costumava chamar de capeta, diabo, cão e outros adjetivos oriundos do capiroto. Isso porque eu era uma criança que gostava de brincadeiras nada recomendáveis.

Minha mãe também não gostava de como eu me divertia. Ela não via o lúdico que existia por trás das travessuras e a peia comia no couro, meu e do meu irmão mais novo, meu fiel seguidor.

Papai passava o dia no trabalho e um dia, no domingo, o vi arrumando sua "pasta presidente", uma maleta rígida com segredo numérico de combinação na fechadura. Percebi que dentro da mala ele guardava um livro de feitiçaria. A partir daquele dia, eu sempre ia ver se ele tinha esquecido a maleta aberta.

Um dia ele esqueceu de fechar. Peguei o livro, chamei meu irmão e disse: temos uma missão hoje à noite.

A gente morava no bairro Beco do Macedo, numa casa grande de madeira (papai era carpinteiro). No quintal, uma pequena casa fechada, onde tinha morado meu irmão mais velho, que após se separar da esposa, ganhou o mundo. Atrás da casa, uma privada também de madeira, construída em cima de uma fossa.

Tinham muitas fruteiras no quintal. Ao lado, um terreno baldio grande, com muitas árvores. No fundo, um declive e no outro lado, morava dona Doca, seu Zé e seus nove filhos.

No início da noite, meu irmão perguntou o que a gente ia fazer com aquele livro do papai. Eu disse: vamos matar a mamãe.

Tinha uma oração ou coisa parecida no livro para "derrubar um inimigo". Pensei: deve ser essa aqui.

Chegou a noite. Todo mundo em casa dormia antes das 22 horas. Esperamos firmemente, aguentando o sono. Dez para meia-noite partimos para o quintal, com 7 velas, uma faca e uma cebola.

Atrás da casa do meu irmão e ao lado da privada, comecei a ler as palavras mágicas, que incluíam o nome da mamãe. Meu irmão dava golpes de faca na cebola. As 7 velas estavam acesas. Uma brisa forte nos fazia frio e um medo terrível de visagem, com os galhos das árvores fazendo mizuras, mas o desejo de nos ver livre da peia diária era maior.

Terminada a leitura, peguei a cebola das mãos do meu irmão, que lacrimejava, mas não de remorso, e joguei o legume na fossa. O feitiço dizia que quando a cebola afundasse na bosta, a mamãe já era.

Lá ficaram as velas acesas e corremos para dormir, certos de que não mais levaríamos aquela indesejada surra todos os dias e que poderíamos jogar catolé na casa dos vizinhos, colocar bombinha no rabo dos cachorros e faltar aula.

Acordamos cedo e levamos logo uma surra da mamãe.

As velas que deixamos acesas tocaram fogo nas folhas, que incendiaram a privada, que incendiou a casa do meu irmão e a cerca de madeira. Foi uma madrugada de bombeiros, vizinhos apagando fogo, um corre-corre danado. Os únicos que não acordaram foi eu e meu irmão, por razões óbvias.

Mamãe logo deduziu que aquilo

Tinha sido obra dos dois capetas.

Mamãe viveu até os 77 anos e só morreu nessa idade porque o cigarro lhe causou um grave enfisema pulmonar.

Eu e meu irmão continuamos levando surras por uns bons anos.

Virei ateu.



Lúcio Carril

Sociólogo

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