Reverter o resultado do 1° turno é possível - e está em nossas mãos
Roberto Amaral*
“O erro da ditadura foi torturar e não matar”- Jair Bolsonaro (Jovem Pan, Junho de 1970)
“Não houve golpe militar em 1964” - Jair Bolsonaro (Roda Viva, 30 julho de 2018)
"Esta é a encruzilhada que a América enfrenta: ou vocês [os EUA] têm o aliado mais poderoso do hemisfério ocidental, ou um antagonista que se alinha com adversários americanos e torna qualquer política americana para a região impossível.” - Flávio Bolsonaro (Folha de S. Paulo, 28/03/2026)
De um famoso e formoso discurso de Otávio Mangabeira, pronunciado em 1945, a história recolheu uma frase que saltou de seu entrecho para correr mundo. Uma advertência que chega aos nossos dias carregada de dramática atualidade: “A democracia é uma flor tenra que precisa de muito cuidado para crescer e para se firmar”. A advertência do tribuno baiano era uma peça em sua campanha contra o Estado Novo.
Mangabeira era um liberal, fauna de há muito em extinção na política brasileira. Foram-se os liberais, mas o projeto permaneceu vigente, mas hoje manipulado exatamente pelos seus mais insidiosos inimigos. Veja-se a injúria que é a promessa liberal, que já foi a bandeira de Raul Pila, ser utilizada na denominação da sigla que abriga o clã Bolsonaro.
A frase lapidar de Mangabeira, contudo, ganhou vida própria e percorre inumeráveis discursos parlamentares desde 1946. Ganhou força e ilustrou e ainda ilustra a eloquência de tribunos, juristas e jornalistas sempre que a democracia é ameaçada pelos seus inimigos de sempre. Assim, por exemplo, na crise decorrente da renúncia de Jânio Quadros, em 1961, assim em 1964. Assim como agora. Desta feita, porém, a ameaça não chega pela rota dos quartéis, mas por dentro de um dos institutos mais sagrados da democracia representativa, o processo eleitoral.
Seja qual for a voz do país no próximo dia 25 – e lutemos todos para evitar a tragédia política anunciada pelo pronunciamento eleitoral do 1º turno – o certo é que são graves e pesadas as nuvens que ameaçam a República e a democracia, reconstruída com tanta luta e sacrifícios de toda ordem, e muita dor. Dor que ainda atormenta as famílias de suas muitas, centenas e milhares de vítimas, brasileiras e brasileiros presos, torturados, seviciados e mortos pela repressão, enquanto facínoras como o Brigadeiro Burnier e o Comandante Ustra eram e ainda são festejados pelo Capitão Jair Bolsonaro (Aos jovens que não viveram esses tempos, e àqueles de minha geração que os esqueceram, sugiro a leitura de Brasil: nunca mais, um relato para a história. Editora Vozes. Petrópolis. 1985).
O regime da caserna não foi posto a termo por um outro golpe de força, como aquele que o instituiu, nem pela resistência armada que o enfrentou, em condições dramáticas e adversas. Foi derrotado pela sociedade civil. Verdadeiro levante de todas as forças cívicas da Nação – cujo estopim fôra acendido pela campanha em defesa das eleições diretas (o direito de o povo escolher o Presidente da República) – pôs por terra os longos e intermináveis 21 anos de ditadura luciferina, cujo espectro – passados hoje 41 anos! – volta a atemorizar. É um passado abjeto que, no entanto, forceja por ressurgir, zombando da memória nacional, e enxovalhando a história.
A democracia, recorde-se, é uma florzinha frágil, sujeita a toda série de intempéries. Carece de proteção e cuidados. Não pode ser posta à mercê de seus inimigos.
A onda neofascista tomou de assalto as duas Casas do Congresso, e anuncia para a próxima legislatura o fim da República social e democrática inaugurada com a Constituição de 1988, que a extrema-direita, pela voz autorizada de seu candidato, promete desnaturar, em mais um golpe parlamentar reacionário. É impossível, por óbvio, alterar a miserável correlação de forças que caracteriza o próximo Congresso, mas é possível e necessário a ele resistir, o que depende da mobilização popular e depende de nosso voto no próximo dia 25, pois ainda há tempo para a resistência.
A resistência é possível e necessária.q
A articulação cívica que derrotou a ditadura – que prendia, torturava e matava (e desaparecia com os corpos de suas vítimas) – pode e precisa ser reconstruída, e o ponto de partida é a reeleição do presidente Lula. Seu governo, eleito pelo clamor das ruas e sustentado no apoio popular, será o dique, o freio de contenção à onda reacionária e antidemocrática, cujo projeto é alienar nosso futuro e conspurcar nossa dignidade, fazendo deste grande e rico (conquanto socialmente desigual) país, uma província a serviço dos mais perversos e dos mais mesquinhos interesses econômicos, políticos e estratégicos do imperialismo, de cuja insaciável fome de poder, tão grande quanto sua arrogância desmedida, se oferece como procurador e vassalo o candidato que disputa o segundo turno com o presidente Lula.
Sonha com o título de Colonial Secretary, ou simplesmente de Resident, título do funcionário britânico designado para representar o Reino e exercer influência política em Estados semi-independentes. Sai de cena o Palácio de Buckingham e a tocha imperial é entregue à Casa Branca, onde um Trump impaciente espera a coroa de imperador do mundo.
Estão postas em xeque, de um só golpe, tanto as conquistas sociais e políticas amealhadas com o fim da ditadura a partir da redemocratização de1988, a esperança de construção de um país desenvolvido e solidário, quanto nossa soberania. Pois o neofascismo que nos ameaça é fundamentalmente entreguista. Caminha na contramão de suas raízes alemã e italiana, e mesmo se afasta do integralismo caboclo de Plínio Salgado, de matriz nacionalista.
Propugna pura e simplesmente a mais vergonhosa subalternidade política, ideológica e econômica aos EUA de Trump. Não se trata de mero acaso o fato de um dos principais quadros dessa direita, o governador Tarcísio de Freitas, haver aberto sua campanha de reeleição ridicularmente fantasiado com o boné de campanha de Trump, onde se lê Make America Great Again.
Reverter o resultado do primeiro turno é necessário, é possível e está em nossas mãos.
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A aniquilação do país rendendo dividendos à Faria Lima – Deu no Valor (05/10/2026): 1) "Ibovespa bate 9% de alta e dólar fica abaixo de R$ 5 após Flávio ficar à frente no primeiro turno"; 2) “Com Flávio à frente de Lula, mercado se prepara para forte rali.Bolsa pode subir mais de 5%, dólar caminha para menos de R$ 5 e juros tendem a recuar"; 3) “Mercado passa a ver corte de 0,50 ponto na Selic em dezembro como resultado do 1º turno da eleição presidencial". A saber: os juros são mantidos artificialmente altos para pressionar um governo de centro-esquerda. Aplausos para Galípolo. Aliás uma indicação de Lula.
Palpites de um velho militante para a estratégia de militantes de todas as idades – No primeiro turno, 39,4 milhões de eleitores aptos não compareceram ou tiveram seus votos não computados, segundo o TSE. São 33,5 milhões de ausentes, 2,3 milhões de votos em branco e 3,7 milhões de votos anulados, em grande parte por erros de digitação, reflexo da baixa escolaridade. Não esqueçamos: 29% dos brasileiros são analfabetos funcionais. Como avalia Antônio Lavareda (Metrópoles, 5/10/2026), a maioria desse contingente seria eleitora de Lula. Vamos usar as redes e todos os meios ao nosso alcance para orientar e mobilizar o voto?
Os maiores de 65 anos, faixa em que Lula tem preferência, somam 62,3 milhões de eleitores. Comecemos por mobilizar familiares e vizinhos. A juventude também pode decidir o segundo turno: são 18,6 milhões de eleitores de 17 a 24 anos. É preciso devolver-lhe a esperança e mostrar que a política pode construir o amanhã.
Não demos por perdidos os votos da direita: cada voto conquistado vale por dois.
Há, portanto, um universo de votos por garimpar.
*Com a colaboração de Pedro Amaral.


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