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A mente escura mente

há 11 minutos
3 min de leitura

Vicente Nogueira•

Sinceramente, se fosse possível, eu gostaria de passar alguns minutos na mente do eleitor de Flávio Bolsonaro no Amazonas. Penso que seria um experimento sociológico fascinante. Essa mente deve ser um ecossistema intrigante, onde a lógica pede demissão, a memória dura três segundos e o masoquismo político reina absoluto.

Convenhamos: o currículo do senador exige de seus admiradores uma elasticidade ética quase olímpica — sobretudo na hora de fechar os olhos perante os fatos.

Afinal, o que exatamente encanta essa parcela do eleitorado?

Será a sua conversão comovente e quase milagrosa em relação à Zona Franca de Manaus? O parlamentar passou anos criticando os incentivos do modelo, mas bastou a aproximação do período eleitoral para desembarcar na capital amazonense ostentando uma camiseta estampada com "100% Zona Franca". Há quem precise de uma revelação divina na estrada de Damasco para mudar de convicção; ao senador, bastam um gráfico de pesquisa caindo e uma estamparia de esquina. Quem precisa de coerência quando se tem algodão impresso?

Ou talvez seja a genialidade empresarial demonstrada na sua lendária franquia de chocolates. O Ministério Público até hoje tenta compreender a física quântica por trás daquela confeitaria, apontada como instrumento de lavagem de dinheiro no esquema das "rachadinhas". É a síntese de sua trajetória: o eleitor pede transparência e recebe um bombom — recheado de perguntas e sem nota fiscal.

E o que dizer do rigor na escolha de suas companhias? Houve a delicadeza de conceder a Medalha Tiradentes a Adriano da Nóbrega enquanto este se encontrava preso — o mesmo indivíduo mais tarde apontado como chefe de uma das milícias mais violentas do Rio de Janeiro. Para completar o quadro familiar, a mãe e a esposa do miliciano figuravam na folha de pagamento de seu gabinete. Uma interpretação verdadeiramente emocionante da "defesa da família": no caso, a família do homenageado, mantida com recursos do contribuinte.

Há também seu invejável talento para a prosperidade patrimonial. A aquisição de uma mansão avaliada em cerca de R$ 6 milhões em Brasília, com financiamento facilitado pelo BRB e transações em dinheiro vivo orbitando o caso, representa um marco. Enquanto o cidadão comum faz malabarismo financeiro para honrar as contas do mês, o parlamentar resolve suas demandas habitacionais com requintes de luxo. É a prosperidade por procuração: o povo vota, ele desfruta.

Não se pode ignorar a sua comovente "veia diplomática" e seu amor incondicional pela pátria. É de uma poesia ímpar ver um senador brasileiro dedicar boa parte de seu tempo a lamber as botas de Donald Trump e pedir abertamente a interferência de uma potência estrangeira na economia e no processo eleitoral do seu próprio país. Uma espécie de "patriotismo ao contrário": rifar a soberania e prejudicar a população brasileira no exterior, tudo com a esperança ingênua de que o padrinho americano lhe conceda uma bênção política. 

Como se não bastasse, sobrou tempo até para a veia artística. Pedir recursos a ex-banqueiro para produzir um filme sobre o próprio pai resultou em uma investigação autorizada pelo ministro André Mendonça, por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Antes mesmo de apresentar qualquer projeto relevante para o país, o parlamentar já garante roteiro de sobra para um documentário investigativo de várias temporadas no streaming.

Para arrematar esse elenco de predicados, soma-se a postura de moralista ao vociferar contra a CNBB e o clero progressista, combinada com uma atuação no Senado tão inoperante que faz o ar-condicionado do plenário trabalhar consideravelmente mais do que sua excelência.

No fim das contas, resta apenas admirar a generosidade desse fã-clube. Trata-se de uma militância que exige ficha impecável de qualquer adversário, mas concede ao seu candidato de estimação um crediário moral ilimitado — sem juros, sem entrada e, principalmente, sem qualquer pudor.

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*VN é professor aposentado da UFAM, onde foi Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa.

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