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A HONESTIDADE INCOMODA MUITA GENTE, MAS É UM VALOR IMPRESCINDÍVEL

há 12 horas
2 min de leitura

Quando falo de honestidade, lembro muito do meu pai.

Era um homem bruto, com as mãos calejadas pela labuta nas trilhas de seringa do Rio Madeira. Não costumava fazer carinho nos filhos, mas nunca largou da sua responsabilidade de pai.

Veio para a cidade e aqui se tornou carpinteiro e marceneiro. Era um artesão na arte de fazer móvel. Talhava a madeira com muita habilidade. Uma pena que não segui a profissão dele.

Não segui, mas o velho me deixou um legado indestrutível: a honestidade.

Ele era implacável quando se referia à desonestidade. Não entrava na sua cabeça um indivíduo enganar, mentir, roubar. Nada poderia justificar tamanha indignidade.

Certa vez, quando ainda criança, eu ia caminhando próximo de casa quando avistei um carrinho de madeira na rua. Da janela de uma casa, um senhor falou que eu poderia levar o brinquedo. O filho dele não queria mais. Levei.

Quando cheguei em casa, meu pai não quis saber. Mandou eu voltar e deixar o carrinho onde achei.

No outro dia, o velho foi para a marcenaria dele e passou a fazer tudo que foi modelo de carrinho de madeira pra mim.

Esse valor inestimável ficou para toda minha vida.

Mas ser honesto num mundo de crise ética causa incômodo e você passa a ser sujeito de um valor que muita gente faz questão de não defender, como se fosse algo estranho, que envergonha e coloca o ser fora do contexto social.

Não podemos prescindir da honestidade como referência de dignidade humana. Ser honesto é uma virtude indestrutível. Deve nos orgulhar. Não é desonroso ser pobre, ser trabalhador e não ter dinheiro, mesmo quando você encontrou oportunidade para ser desonesto.

Lembro aqui de Rui Barbosa.

"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."

Pois é. Nada pode nos "desanimar da virtude... a ter vergonha de ser honesto".

Além do meu pai, tenho tanto bons exemplos de honestidade. De gente que foi - e outros que são - gestor público, detentor de mandato popular, funcionário público, empresário, e que nunca abandonou a honestidade e a dignidade.

Tenho tido esse exemplo até hoje do casal Félix e Ilsa Valois, de João Pedro e Leda Mara, da minha companheira Carla Sarrazin e de outras dezenas de pessoas que tenho na minha relação de amizade.

Não por acaso, até hoje a advogada Yara Queiroz lembra com orgulho do seu pai, Francisco Queiroz, que foi presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas.

Quanto orgulho para seus filhos. Construíram família fincada na honra e nos melhores valores humanos. O exemplo dos pais pesa muito.

E não se trata apenas de ser honesto com o uso daquilo que é público. A honestidade é um jeito de viver. Não podemos eleger a desonestidade como meio de vida.

Assim vou caminhar até os últimos dias da minha vida. Tenho a certeza de que minhas filhas também se orgulham de ter um pai honesto, digno, apesar de liso, mas muito feliz.


Lúcio Carril

Sociólogo.

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