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Os sinos dobram pelo que vai nos restar

há 10 horas
4 min de leitura

Walbert Monteiro*


Neste último domingo de setembro, imerso na contemplação de minha pequena biblioteca, mas absorto com a preocupação sobre os destinos desta imensa nação brasileira a exatos sete dias das eleições gerais, revejo uma fotografia significativa e recordo de um livro que marcou minha juventude: “Por quem os sinos dobram?”

Trata-se de um romance sobre a guerra, mas principalmente sobre a condição humana diante do sofrimento, do dever e da morte, escrito por Ernest Hemingway e publicado em 1940. O romance se passa durante a Guerra Civil Espanhola. O protagonista é Robert Jordan, um norte-americano que luta ao lado dos republicanos e recebe a missão de explodir uma ponte estratégica para ajudar uma ofensiva militar. Durante os poucos dias em que prepara a ação, ele convive com um grupo de guerrilheiros, enfrenta conflitos internos, conhece o amor e se vê diante da possibilidade concreta da morte.

A temática central do livro não é apenas sobre a guerra. Hemingway trata de coragem, sacrifício, morte, amor, lealdade, medo, solidariedade e sentido da vida. O título vem de uma célebre meditação do poeta e religioso inglês John Donne, segundo a qual nenhum ser humano existe isoladamente: a morte de qualquer pessoa nos atinge porque todos fazemos parte da mesma humanidade. Daí a frase: “Nunca perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

Penso que essa pergunta nos atravessa como lâmina, pois não há morte “do outro” que não nos alcance. Uma vida se perde e, com ela, perde-se também um pedaço do mundo. A força do livro está nessa constatação amarga e simples: somos ligados por algo que não se vê — o destino do homem, a fragilidade da paz, o cuidado que deveria atravessar fronteiras, bandeiras e partidos quando o foco fosse a coletividade.

No Brasil, os sinos não repicam em função de um conflito armado, não há artilharia no seu sentido real, nem há trincheiras e barricadas fisicamente instaladas nas ruas. Eles chegam em outro formato, bem atual: nas redes sociais que não param por um segundo, nos debates que viram gritos de acusações recíprocas, nas manchetes que transformam dúvida em sentença, na sucessão de “provas” que amanhã se desfazem diante de novas provas;nas notícias que divulgam um pântano de corrupção institucionalizada que se propagou como epidemia moral envolvendo quem deveria ser impoluto, Chegam também no modo como a conversa em família se esfarela, na forma como vizinhos e colegas de trabalho deixam de se relacionar; nas amizades que não resistem às divergências ideológicas, na pressa de reduzir o outro à caricatura. A guerra aqui é mais silenciosa, mas não menos real: uma batalha diária pela cabeça e pelo coração, pelo direito de ser ouvido e pelo direito de ser descartado.

Nesta época, o país vive um momento de profunda apreensão nacional. As eleições parecem ocupar tudo — e, no entanto, parece que quase nada sustenta. O destino da Nação é um cenário, mas não é um compromisso levado a sério. O debate perde o chão e ganha o efeito especial: o que importa não é a estrada intrafegável, nem o desemprego, nem a escola e o hospital que faltam, nem a fome que persiste, a insegurança que amedronta, nem a dignidade de quem acorda cedo para sustentar a própria sobrevivência, preocupado com a sucessão de dívidas a pagar. O que menos importa é o que mais deveria importar. E é aí que a pergunta de Hemingway se encaixa como uma luva: por quem os sinos dobram? Para nós. Para este país que finge não reconhecer que o som desse clamor é o mesmo, qualquer que seja a sigla, a cor, o sermão.

Porque o dobrar dos sinos é pelo povo. Dobram por quem perde o emprego e é tratado como estatística. Dobram por quem não tem tempo de pensar — apenas trabalha, corre, sobrevive — e ainda precisa defender o básico: um direito, um respeito, um mínimo. Dobram por quem é manipulado por medo, e também por quem manipula, convencido de que a raiva é coragem. Dobram por quem se endurece até não perceber mais que está sozinho, mesmo cercado. Dobram por quem acredita que vitória é esmagar e derrota é calar. Dobram por quem esqueceu que o futuro não é propriedade exclusiva de um lado e que a História, em seu julgamento na posteridade, não perdoará os culpados e os omissos.

Eu digo isso porque não pode haver neutralidade. Neutralidade é só covardia bem-vestida. O que peço — e o que Hemingway, em sua lucidez dura, parece cobrar — é que a política não vire armadura contra a humanidade. Que o argumento não vire arma. Que o adversário não vire inimigo a ser apagado. Que a eleição, por mais importante que seja, não se torne altar onde se sacrifica tudo: diálogo, verdade, decência, o cuidado mínimo com a vida coletiva.

Em algum lugar dentro de nós, sabemos que a nação não é feita apenas de votos, mas de consequências. E consequências não escolhem preferências partidárias. Elas recaem em todo mundo, indistintamente, como a chuva ou o sol que não perguntam quem merece. Por isso, quando a polarização engrossa e o ódio aprende a falar mais alto, os sinos não dobram “por eles” — dobram por nós, porque a desgraça é contagiosa e a desatenção também. Um país pode piorar sem que ninguém perceba no dia seguinte, do mesmo jeito que um ferimento interno vai tomando corpo em silêncio.

E então, no fim, sobra a mesma resposta, só que mais brasileira, mais nossa, mais urgente: os sinos dobram por nós, neste momento de apreensão nacional, porque a Nação é uma só e o destino do outro é também o nosso destino. Não importa quantas bandeiras tremulem: se a vida coletiva racha, racha tudo. Se a o respeito se rompe – e o que mais se constata é a falta de respeito com a Nação - perde-se o futuro.

Por quem os sinos dobram? Dobram pelo que ainda podemos salvar — juntos — antes que o som vire apenas hábito e a gente se acostume a perder. Para sempre.

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*Advogado e jornalista, o autor é mbro das Academias de Letras do Pará e de Jornalismo do Pará.

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