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Prosperidade como bem exclusivo

Diz-se que a história não dá saltos. Ela se construiria a cada instante, ininterruptamente, sem a possibilidade de uma corrida de obstáculos retilínea e trajetória abrupta. Embora discutível, essa hipótese encontra defensores e detratores. Em geral, apontam-se nações e civilizações antigas, sempre que se deseja advogar em favor dela. Desde a Idade Moderna, todavia, tal conceito pode ser posto à prova. A Revolução Francesa, em 1789 e, depois, a Revolução Russa; mais recentemente a Revolução Cubana e, mais próxima ainda, a queda do muro de Berlim servem à contestação da hipótese de avanço vagaroso. Quase seis décadas atrás, o homem chegava à Lua, um feito que ainda alimenta a ilusão dos incrédulos. Naquele momento, 20 de julho de 1969, o astronauta norte-americano Neil Armstrong fez ligeiro passeio no território lunar, lançando a grande frase de efeito: um pequeno passo para o homem, um grande salto para a Humanidade. Menos de vinte anos depois, o passo de Armstrong não foi alargado, nem a sociedade humana tornou-se melhor. Os obstáculos a ela impostos só fizeram crescer, de tal modo que a dinâmica social aparenta mais o retrocesso que o progresso. Se é de Humanidade que desejamos tratar. Já em 1936, Charles Chaplin, um pensador travestido de comediante e cineasta, dizia necessitarmos (a sociedade dos animais superiores) mais de sentimentos que de tecnologia. Enquanto essa avança esplendidamente, em especial pelas conquistas tecnológicas aceleradas, menos corações se enternecem e menor é a solidariedade entre os animais que Aristóteles dizia ser, essencialmente politico. Ao contrário, desde a chegada do homem à Lua, não se tem feito mais que acumular riqueza material e, pela sua concentração em porções permanentemente reduzidas, aprofundar a desigualdade. O grande gestor dessa situação caótica, capaz de comprometer até mesmo a vida do Planeta, é o que se chama mercado. Pior, valores que se pensava definitivamente superados e ações aparentemente erradicadas impõem-se em todos os continentes. É disso que nos dá conta o noticiário mundial, quando revela o retrocesso experimentado, durante este ano prestes a encerrar-se. A situação, em geral desanimadora, torna mero dever protocolar a saudação conhecida: próspero ano novo. No mínimo, por reduzir a multidão dos que realmente desejam a prosperidade para todos. Aos outros cabe desfrutar da prosperidade com o egoísmo que têm revelado, ano-pós-ano com maior apetite. Desejar-lhes prosperidade equivaleria à legitimação da ação predatória e nefasta a que se acostumaram.

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