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Poema para uma cidade


Exatamente há 60 anos, eu chegava em Manaus. Passaria 15 dias, para depois regressar a Belém do Pará, onde deixara o umbigo. Aos que infelicitavam o País e seu povo, interessava tapar todas as bocas, perseguir todos os opositores. No simulacro de eleições então instituído, fazia parte da falsa campanha eleitoral a prisão dos adversários. Com ou sem culpa formada. Com ou sem qualquer imputação delinquente. Não podia ser diferente, pois a delinquência e a impunidade são privilégios dos ditadores. Bastavam-me os 60 dias de prisão em estabelecimento militar – pensavam meus pais. Que eu não voltasse logo. Depois, escolhi ficar em Manaus, na quarta vez em que aqui cheguei. Outra prisão se impunha, aquela que vem do coração. Encheu-se de Graça minha Vida; de promessas e sonhos, também. Dois filhos gerados terão sido a maior obra. O poeta que trazia dentro de mim e a gratidão pela acolhida e pelas portas que vi abertas, acabaram por dizer também em versos o testemunho de cada momento. Em 2011, figurei entre os premiados pela Academia Amazonense de Letras, em concurso comemorativo da cidade-abrigo, a Minha Pasárgada. O poema, depois integrado ao livro Aleivosias poéticas (Editora Scortecci, SP, 2018), mais que uma peça literária, mais que um testemunho, é a tradução do sentimento de quem se deixou encantar, pela cidade e por sua gente. Da graça inaugural, conquistas pouco a pouco alcançadas. Diriam os fiéis uma graça alcançada. Mais que isso, digo-o eu. Eis o poema;

 

Na minha Pasárgada

não preciso ser amigo

do rei

 

Que venham

todas as mulheres

de onde, nem sei

porque dentre elas,

a mais amada  é

com quem dormirei...

 

É lá que sou feliz

com os loucos

e sua grei

que não vêm d’Espanha

nem parentes ou contraparentes

são da inconsequência

que só eu sei...

 

Lá, não faço ginástica

de bicicleta não ando

burro bravo não montei

no pau-de-sebo não subo

de rio serão os banhos

que todo dia tomarei

 

As histórias que ouvi criança

de boto, curupira e de rei

saci, iara, matintaperera

cobra grande, mapinguari

longe de lá nunca mais ouvirei

 

Aqui, sim,

é outra a civilização

concebe-se - à vontade – eu sei

comendo peixe e pirão

o sol quente na cabeça

que nem sempre cobrirei

 

Nunca me dá vontade

de me matar; nem matarei

morrerão os outros

de raiva (ou de inveja)

na minha Pasárgada

que igual não encontrarei.

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