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Pesos e contrapesos

Imaginar fácil o governo em qualquer democracia é simplificar as coisas, as pessoas e o ambiente que elas constroem. Para o bem e para o mal. A essência humana, como dela disse Aristóteles, é tão diversa e variada, quanto o são as sociedades construídas pelo conjunto de seres humanos. Se a democracia tem como pressuposto a chegada à unanimidade, teremos chegando à máxima de Nelson Rodrigues:: toda unanimidade é burra. Onde não há contraditório, rematada tolice é falar em democracia. O vezo autoritário, porque elimina o contraditório, tira o caráter humano da sociedade, onde quer que se instale... Para qualificar essa dificuldade, especialistas e curiosos acharam o termo governabilidade. Como condição necessária ao cumprimento do mandato dos que governam. O exercício do governo, portanto, será vão, inócuo ou frustrado, se o clima adequado à conquista dos objetivos propostos e avalizados pelos que votam não for estabelecido. O triPresidente Lula assumiu a Presidência da República, em 01 de janeiro, porque os brasileiros se haviam convencido de que não é a ditadura, mas a democracia; não é o projétil de aço, mas o livro; não é o preconceito, mas a tolerância - que ajudam a nação a construir-se. Sua habilidade não cansa de ser louvada, inclusive - e sobretudo, talvez - pelos que, nos embates entre trabalhadores e patrões, com ele discutiram durante longo período as condições de trabalho e ganhos, de uns e de outros. Poderia esperar-se de Lula portanto, um terceiro mandato ao final coroado pelo mais retumbante êxito. . Embora encontrando uma nação odiosamente dividida, avessa aos valores mais caros à civilização cristã (falo do cristianismo COM Cristo) e simpática à barbárie, de muito serviria a habilidade do Presidente. Teria chegado a hora de reconciliar e reunir. Os primeiros gestos de Lula revelaram-no interessado em superar todas as dificuldades, tentativas de humilhação e sacrifícios pessoalmente sofridas. Mesmo ao arrepio da Lei, com o que seus opositores se fizeram - como disseram dele - simples e rematados marginais. A preferência de Lula, porém, pareceu a de quem desenhava sua própria biografia. Já não apenas no nível nacional. O Mundo passou a ser o foco de sua atração. Talvez a busca de um posto na ONU, quem sabe em outro organismo internacional? Para assegurar a governabilidade tão invocada, fez o que se faz em qualquer democracia ou tentativa de conquistá-la. Sentou-se à mesa, como o que de melhor há no Parlamento, mas também com o que de pior há na sociedade.. E, feitas as contas e pagas as faturas, seria a hora de governar os milhões de eleitores que nele confiaram e todos os demais. Ninguém era mais inimigo.. Reunir e reconstruir passou a ser a palavra de ordem. Não bastou isso, porém, para desarmar os espíritos. E Lula deu sucessivos tiros no pé. Alguns, desferidos pela língua solta que não exibiu nos governos anteriores. Depois, desafiado por setores gulosos de seu próprio partido. Não raro, pela astúcia de supostos adversários ideológicos, desde que as algibeiras não se encham de dinheiro gordo. Hoje, refém do centrão, como o têm sido os sucessivos governos post-Itamar Franco, o Presidente vai cometendo equívocos que podem aproveitar menos a ele e seu governo que aos adversários. A transferência de Flávio Dino, do Ministério da Justiça para o STF é um desses lamentáveis equívocos. . O Brasil não ganhará com isso. Espero eu estar cometendo enorme - deixem-me ser repetitivo - equívoco. Se Dino não é insubstituível, ele ainda teria muito o que oferecer, se levamos mesmo a sério a democracia. Na mais alta corte de Justiça do País, ele jamais superará a impressão - real ou inventada - de ser membro da bancada governista. Mesmo sem a terribilidade de que algum dos novos colegas se faz portador.

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