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Hitler homenageado

Tem lá suas razões (ou apenas pretextos?) o Presidente da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA, na sigla inglesa), ao contestar a saída do Brasil da organização. Mas não a tem toda. Admite-se sua objeção, porque seria quase despropositado vê-lo de braços dados com cães e gatos que discutem e disputam a Verdade, em relação ao genocídio praticado pelo governo de Israel. Cada qual apresenta argumentos, quando não apenas pretextos, na tentativa de justificar a exterminação dos palestinos, de que Gaza é o cenário. Dani Dayan (esse o nome do Presidente da IHRA) nada diz sobre os fatos mais recentes, como se a memória dos sofrimentos impostos por Hitler a seus ancestrais apagasse a edição mais atual da liquidação de um outro povo. Pior, repetição das mesmas atrocidades de que os ancestrais de Benjamin Netanyahu ainda guardam sequelas. Lembrar dos crimes de Hitler, mais que um simples e passageiro lamento ou uma das manifestações de luto, sempre deverá servir ao compromisso de evitar a repetição do holocausto. Contra qualquer povo, onde quer que esse crime ocorra. Compreende-se a inconformidade de Dayan, mas se torna impossível vê-la como algo que ajuda a entender e, mais grave, a conduta sabe a apoio à ação exterminadora do Primeiro-Ministro israelense. Desde o início contestado por políticos, e outras personalidades e entidades da comunidade judaica, o exagero da resposta aos atos terroristas do Hamas coloca Netanyahu no rol dos grandes e truculentos exterminadores, ao longo da História Universal. Se dermos atenção a pronunciamentos mais recentes, não há como ignorar - ou fingir ignorância – como se têm posicionado membros das próprias forças armadas de Israel. Muito menos, se pode ser indiferente às manifestações ocorridas em todos os lugares do Mundo onde há judeus, inclusive em território israelense. Se o IHRA deve ser preservado e prestigiado para que tenha êxito em sua missão, o governo de Israel não tem concorrido para esse objetivo. Ao contrário, equipara-se ao responsável pelos crimes que deram origem à própria Aliança. Durante a rememoração do primeiro centenário da Guerra de Canudos, todos os slogans e palavras de ordem lembravam que a memória pode ajudar na tarefa de impedir que tão ignóbeis fatos sejam repetidos. Essa, portanto, deve ser a missão principal de uma entidade como a IHRA, não a irritação porque um governo estrangeiro a vê distanciar-se dos propósitos que justificaram a criação da aliança. A irritação justa e a resposta adequada podem substituir a descabida reação do Presidente da entidade, cuja manifestação deveria ser a de reprovar o governo do país cujo povo Hitler pretendeu exterminar. Essa, sim, seria a resposta mais legítima e humanitária da IHRA. O resto não é menos que uma homenagem ao ex-cabo austríaco.

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