Gepeto e Pinóquio
Dilema incontornável, a antecedência entre o ovo e a galinha pode ser aplicada à questão entre a vida e arte: qual imita a outra? Socorri-me, então, da velha história aprendida nos anos da minha infância. Carlos Colodi, o autor (* Florença, 1826; +Florença, 1890) terá sido inspirado por Esopo. O escritor italiano criou Gepeto que, uns dizendo-o um relojoeiro, e outros tendo-o como carpinteiro, vivia só. Quando se deu conta de sua solidão, Gepeto imaginou quão importante seria acompanhar-se de alguém, humano como ele, como dar concretude à expressão de John Donne (clérigo inglês, sec. XVII, Meditações) - homem nenhum é uma ilha. O sonho do operário generoso e só consumou-se, por artes de uma fada, a Fada Azul. O pequeno boneco de madeira ganhou voz, e dela fez uso. Atento aos perigos do mundo, Gepeto encomendou a um grilo (igualmente falante), acompanhar o filho que se tornara humano. No percurso e nas andanças de Pinóquio, o boneco que se tornara gente, surgiram uma raposa e um gato. A curiosidade da criatura do carpinteiro fê-la desdenhar dos cuidados e dos valores que os conselhos do grilo-cuidador, tantas as seduções dos espertos e rapaces. Daí, raposa e gato levaram Pinóquio por outros caminhos. Se o carpinteiro cobrava do filho a verdade como farol e bússola, não era isso o que orientava a conduta de Pinóquio. A cada mentira, crescia-lhe o nariz. O desfecho dessa história, uma espécie de fábula, quase toda criança não esquecia. Os que se opunham a ela e seus ensinamentos, simplesmente a desdenhavam. Gepeto era bom, generoso e dotado dos melhores e mais lisonjeiros valores atribuídos aos que dizemos animais superiores. Imagine-se, agora, o que esperar da obra de um avesso de Gepeto! Imagine-se mais - um carpinteiro que sempre se fez íntimo de gatos e raposas!


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