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DIVAGANDO ENQUANTO CAMINHO


Walbert Monteiro*



Caminho pelas ruas do meu Bairro do Jurunas, nas primeiras horas de uma manhã qualquer deste modorrento (na capital) e frenético (nos locais de veraneio) mês de julho que termina. Para muitos, inclusive eu, significando o fim das férias.

Retorno de uma sessão da academia (de ginástica, com o objetivo de melhorar o fortalecimento dos músculos que sentem o passar dos anos). Trago o semblante alegre de quem venceu mais uma etapa. É muito curta a distância até o meu prédio e, no percurso, vou observando cenas do quotidiano: gente que desperta cedo para começar sua jornada de trabalho; casais que, conversando alegremente, vão realizar seus exercícios; transeuntes que passam...

Em todos percebo reações diferentes ao cruzarem por mim. Tenho o hábito de saudar as pessoas, conhecendo-as ou não. Uns, simpaticamente, respondem ou tomam a iniciativa de desejar “bom dia”. Outros ignoram a saudação e seguem, rostos fechados ou tristes, seguindo seus passos. Aprendi que não se deve nunca julgar as pessoas. Primeiro, porque ninguém nos delegou a função de juízes do comportamento alheio. Segundo, porque, não conhecendo as intimidades e circunstâncias das vidas dos nossos semelhantes, falece qualquer direito de formarmos conceitos sobre condutas e personalidades de quem nos cerca, sobretudo naquele átimo de tempo em que passamos uns pelos outros. Quais tristezas, problemas, dramas íntimos, dificuldades financeiras, situações dramáticas de saúde, incompreensões dentro da família, envolvem o nosso próximo que está de rosto fechado e semblante amargo?

Vejo o lixo acumulado na calçada e no meio-fio. Um vergonhoso testemunho da falta de educação e civilidade de quem ali, na via pública, vai depositando o que lhe é descartável. E percebo que, mesmo em um bairro da chamada classe média, falta um mínimo de bom senso para compreender que isso é uma questão sanitária que, além de enfeiar a cidade e transmitir má impressão aos visitantes, coloca em risco a saúde uma população inteira.

Passo por um cidadão “em situação de rua”, um pobre coitado que se abriga em papelões que lhes servem de cama e coberto por lençóis sujos e rotos. A expressão que coloquei entre aspas representa a mudança sugerida pela nomenclatura oficial e sociológica para refletir sobre uma nova forma de abordar e tratar a questão social, substituindo termos estigmatizantes anteriores. A troca não resolve o problema e as discussões que se situam no plano da filosofia e dos devaneios não desejam, com sinceridade, encarar o problema em toda a sua extensão e profundidade. E proliferam teses acadêmicas e discursos demagógicos, enquanto cresce uma população que tem nas calçadas seu único abrigo.

Enquanto dialogo interiormente sobre a incapacidade de os poderes públicos resolverem o desafio de mudar essa situação, me indago sobre o que levou aquele meu irmão a ficar condenado à solidão, sem um lar que lhe ofereça o mínimo da dignidade que sua cidadania exige. Que dramas pessoais mudaram o curso de sua história? Como terá sido sua infância? Teve oportunidades de brincar, estudar e ter cuidados médicos? Qual curva do destino lhe retirou quaisquer possibilidades de ser, realmente, reconhecido como pessoa?

A caminhada, que começou bem humorada e sorridente, chega ao seu término quando adentro a portaria do edifício. Brinco com o porteiro que me recebe com afável hospitalidade. Mas, vou levando no coração e na mente a fotografia daquele mendigo abandonado ao relento e cuja solidão nos condena a todos pela incapacidade de sermos efetivamente solidários.


*Jornalista e escritor, colaborador d' O Liberal, Belém, PA.

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