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DIA INTERNACIONAL DO RISO: COMBATER O RIDÍCULO POR MEIO DO RISO


José Alcimar de Oliveira *

 

 O primitivo, que, pela sua teimosa vocação de felicidade, se opunha a uma terra dominada pela sisudez de teólogos e professores, só podia ser comparado ao louco ou à criança (Oswald de Andrade).


               01. Neste 2026 o Dia Internacional do Riso, sempre comemorado em 18 de janeiro, cai num domingo, no início da semana. Penso que as crianças e os loucos, duas categorias de mamíferos humanos entre as mais saudáveis, são também as que mais riem. Segundo o Nietzsche de Zaratustra, só é digno de crença um deus capaz de dançar. A dança é uma forma de conjurar o “espírito de gravidade”, própria do diabo.  “Quando vi meu diabo – conforme Zaratustra – achei-o sério, meticuloso, profundo e solene: era o espírito de gravidade – ele faz todas as coisas caírem”. É célebre a interrogação de Zaratustra: “Quem é o pastor em cuja garganta a serpente entrou? Quem é o homem em cuja garganta entrará tudo de mais pesado, de mais negro?”. Somente ao ouvir o grito libertador de Zaratustra, é que o pastor cuspiu para longe a cabeça da serpente e, de um salto, se ergueu. Já não era mais um pastor ou um homem, mas um ser “transformado, um iluminado que ria! Jamais, na terra, um homem riu como ele ria!”. Por essa e outras lições é que tenho Nietzsche como filósofo e santo do meu altar de profana devoção. 

               02. O Evangelho de Jesus de Nazaré sempre estará em conflito com o conservadorismo e as práticas do moralismo negador da vida. Evangelho é alegria, humor saudável, liberdade, coisa que Jesus era impedido de exprimir e de experimentar nas sinagogas e nos cultos de seu tempo.  Por isso, ele gostava mesmo era do espírito cultivado em sua Betânia, sem preconceitos e longe do farisaísmo daqueles que se proclamavam Doutores da Lei. Gostava de se refugiar na casa de Marta e Maria. Gostava de permanecer ali e de conviver com os simples. A Igreja-Poder sempre foi hostil ao riso. No romance O nome da rosa, Umberto Eco, grande referência para o estudo do mundo medieval, mostra esse conflito no tenso diálogo entre o venerável Jorge, monge cego e guardião da biblioteca (seria uma referência reversa ao grande Jorge Luis Borges?) e o franciscano Guilherme de Baskerville: em resposta ao franciscano, que defendia o direito cristão ao riso, o monge rebate: o riso afasta o temor de Deus, e sem o temor a fé é impossível. Se o venerável Jorge, pleno que era de espírito de gravidade do Medievo, tivesse lido Jesus de Nazaré: uma radiografia para além dos Evangelhos, recente livro do jovem teólogo e historiador Eduardo Hoornaert (que neste 2026 caminha para os 96), seguramente teria encaminhado a obra e o autor para a fogueira punitiva da ortodoxia da cristandade, sobretudo se lesse o Capítulo 4, intitulado Jesus irônico, onde Eduardo, com maestria, confronta o Jesus hierático e sisudo  da tradição com o Jesus humano, livre, conversador, que punha em contradição a ortodoxia religiosa de seu tempo.  

               03. Verdadeiramente humano, Jesus de Nazaré apostou na Igreja-Povo-Carisma e confrontou com sua prática samaritana a Igreja-Poder-Instituição. Em verdade, nunca fundou nenhuma igreja. Apostou antes no projeto de um Movimento (algo conforme ao espírito dos Evangelhos) do que numa nova religião positivada em ritos e leis.  Não discriminava ninguém, nem mesmo o célebre fariseu Nicodemos, príncipe dos judeus, que foi ter com ele à noite por medo de ser retaliado pelo fascismo devoto da época. Mesmo sabendo da prisão cognitiva em que vivia Nicodemos, de seu apego ao poder, a generosidade de Jesus de Nazaré o impeliu a uma longa, didática e dialética conversa com o renomado e envergonhado fariseu. Sabia que lançava semente em terra pedregosa. Porque a ele, Nicodemos, era impossível fazer o trânsito epistemológico do ser-em-si enredado pelo fundamentalismo religioso ao para-si da liberdade para “nascer de novo” apresentado por Jesus de Nazaré.

               04. Avesso a todo ressentimento, o Nazareno era um homem livre. Sobre ele Santo Irineu afirmou ter sido o primeiro homem livre da história. Certamente riu muito, contou parábolas e sempre cultivou bons afetos. Betânia era a casa dos seus verdadeiros amigos. Ali se cultivava uma epistemologia evangélica em conflito com a obtusidade legalista do culto farisaico. Betânia teria sido o embrião dos Círculos Bíblicos e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs): alegria, partilha, vida comunitária, tudo regado a boa conversa e humor verdadeiro. Tudo aquilo que é refratário ao poder e suas máscaras. É por isso, por descortinar a face humana e irônica de um Jesus de Nazaré a partir de uma leitura que vai de forma acutilante ao que se oculta nas entrelinhas dos relatos evangélicos, é que sustento que o livro de Eduardo Hoornaert se destina a mentes livres, porque nele, a partir da remoção de camadas sedimentadas por uma apresentação de Jesus prisioneira da ortodoxia e avessa à dúvida, vemos assomar o Jesus da contradição e da afirmação da vida, o que a força da tradição tratou de ocultar.

                05. O bom humor é sinal de inteligência e liberdade de espírito, algo impossível de ser encontrado nos ditadores e naqueles que os seguem e cegamente os idolatram. Nietzsche, um teólogo sem cátedra, mas certeiro na crítica à religião do ressentimento, tenta com desmedido esforço preservar Jesus da prisão da vontade de verdade construída pelo amálgama socrático-platônico-aristotélico-tomista que deu origem ao cristianismo, a que o mestre de Zaratustra denomina de “platonismo dos pobres”. Antes de serem positivadas pelos cânones da racionalidade instrumental, a força originária das religiões, sem exceção, estava também na dança, na celebração da vida, na manifestação do que Nietzsche denominava de potencialidade dionisíaca da existência. A verdade, é que por força do enquadramento canônico e apolíneo, o culto à vida cedeu lugar ao culto à verdade. Ao cancelar a precedência do Caminho sobre a Verdade, a Vida foi sacrificada. Em sua fala originária, diz o Nazareno: eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Para o devir humano a verdade não pode se antepor ao caminho.   

               06. Há algum tempo descobri que na Argentina, país que desconheço se é mais sério do que o Brasil, foi inaugurado em 2012 o Museu do Humor, em Puerto Madero, Buenos Aires, no local da velha e famosa cervejaria Munique. Se em tempos menos mileianos tiver oportunidade de voltar à Argentina, esse será meu primeiro destino. Hoje o Brasil apresenta um baixíssimo coeficiente de bom humor. O ódio cada vez mais se organiza como forma de vida política. Penso que o riso é uma das formas de combater o ridículo em que tentam transformar o Brasil. Viver é também subtrair peso à vida, às relações, às tendências estabelecidas e naturalizadas. Italo Calvino e Milan Kundera são mestres literários nessa arte. Encontramos em Kundera a observação de que aquilo que se apresenta como obrigatório carece de seriedade, porque o que é sério deve necessariamente ser facultativo.  

               07. Manter o riso, a alegria, o bom humor e seguir na luta. João Paulo I, o Papa que que encantou o mundo com o seu sorriso, e cuja morte até hoje está envolta em suspeitas e tramas de cúpulas e de poder, mostrou sem palavras a potência do riso e do bom humor. Se o falecido Papa Francisco, a despeito de sua rígida formação jesuítica, trocou o nome de Jorge Bergoglio para Francisco, é porque percebeu a força evangélica da seráfica alegria franciscana. Se todo especialista, conforme Nietzsche, é digno de uma corcunda e se uma testa sem rugas pode denotar um espírito insensível, assim assevera Brecht, um ser refratário ao riso imprime peso à arte de viver. Como assinala o poeta Jean de Santeuil: ridendo castigat mores - rindo castiga os costumes, sobretudo os maus costumes e os costumes dos maus e perversos. 

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* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, onde cursou e obteve o mestrado e o doutorado.  É também teólogo franciscano ex corde e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana – CE). Desde Manaus, AM, em janeiro de 2026.

 

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