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DIA INTERNACIONAL DA AMIZADE (DIA)


José Alcimar de Oliveira*

O camarada é o grau zero do comunismo porque muda nossa relação com nós mesmos, com os outros e com o mundo. Ele marca, assim, uma relação política para além do binarismo amigo-inimigo (...). Às vezes, só de sabermos que temos camaradas que compartilham nossos compromissos, nossas alegrias e nossos esforços para aprender com as derrotas, o trabalho político se torna possível onde antes não era (Jodi Dean).


               01. A ONU definiu a data de 30 de julho como dia Internacional da Amizade. No Brasil, a partir de uma iniciativa de origem argentina (em seguida aceita no Sul Bolivariano). a data é celebrada no dia 20, também denominada como Dia do Amigo, Dia da Amiga. Sem entrar na discussão das datas, penso como justo reivindicar também a comemoração do Dia do Camarada, da Camarada.  Em que data? Não sei. Em sua raiz grega, a amizade pode implicar, com as devidas distinções, pelo menos três formas de amor, do Eros, da Philia e do Ágape (erótico, philial e agápico). Em uma de suas Cartas Encíclicas, a Fratelli Tutti, de 03 de outubro de 2020, o Papa Francisco definiu o sentido agápico do amor como um apelo à fraternidade e amizade social. “O amor é político, isto é, social, para todos”, e completou: “as guerras são a derrota da política”. 2026 já se iniciou sob a predação e o terror do capitalismo bélico, com seus rastros sanguinários de colapso ambiental e barbárie social.

               02. O Dia do Camarada, da Camarada, além de recuperar o sentido político da fraternidade e da amizade social, é uma forma de afirmar a recusa da forma burguesa de amizade autocentrada no individualismo e na busca daquele reconhecimento calcado no desempenho da figura do vencedor. O ideal político do pertencimento social, inerente ao conceito de camarada, vai de encontro à inoculada ideologia do indivíduo tomado “pelo apetite burguês do êxito pessoal”, para aqui mencionar nosso educador maior, Paulo Freire. Quem é, o camarada, senão o indivíduo social, que não busca sê-lo, porque a condição de camarada não é da ordem da autoproclamação. Quem é camarada constrói-se no agir, na afinidade coletiva da luta pela emancipação humana, porque sua constituição é tecida pela via da práxis do materialismo histórico e dialético.

               03. O camarada não é da gênese da cultura burguesa. A vida do camarada é presidida pela força do afeto social, solidário, algo impossível de ser produzido na subjetividade que informa as relações sociais burguesas. Falar em solidariedade burguesa soa como um oxímoro gramatical e uma antinomia política. Ao analisar o romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, o impenitente marxista Carlos Nelson Coutinho encontrou na maestria literária materialista do Mestre Graça os elementos que definem a “construção de um burguês” na figura de Paulo Honório: êxito individual, rapidez imbatível e máxima posse. Com justa razão e justificado ódio o camarada Lukács certa vez declarou: “nunca incorri no erro de me deixar impressionar pelo mundo capitalista, o que diversas vezes pude observar em muitos operários e intelectuais pequeno-burgueses. O ódio cheio de desprezo que sentia desde os tempos de infância pela vida no capitalismo preservou-me disso”. Amós, exemplo de profeta-agricultor por excelência e santo que habita o altar que reservo à teologia heterodoxa, agiu como um lukácsiano avant la lettre ao invectivar com palavras acutilantes (hoje politicamente incorretas) a vida fútil das madames ricas e ociosas da região semita de Basã.

               04. A cultura, esse conceito-armadilha que uma vez José Comblin definiu como “prisão dos  pobres” – e é isso mesmo, ao se tratar de um processo que penetra na consciência do povo, gera convicções cognitivas e cria modos de vida –, porque uma cultura regida por relações capitalistas implica (ao contrário do que é associado ao conceito) uma apropriação subjetiva de si e do mundo pelo lado da heteronomia, é também e contraditoriamente o único espaço possível de libertação dos pobres a partir da instauração do ser social pela figura do camarada. Onde há camaradas existe solidariedade de classe, consciência de classe e luta de classes. Quando a lógica do camarada informa a filosofia e a filosofia do camarada penetra na consciência do povo, o pobre de direita deixa de ser um pobre de direitos, passa a se reconhecer como classe e se afirma como sujeito histórico de direitos.

               05. A lógica do camarada, ao imprimir consciência de classe nas relações de amizade, eleva a amizade ao patamar de amizade social e confere às relações sociais o estatuto superior da camaradagem. E quanto à política?  O ser humano é um animal político, aprendemos com Aristóteles. E mesmo quem se diz apolítico, ou afirma não gostar e chega mesmo a criminalizar a política, também faz política, no caso a pior política: a política da despolitização da política. Não confundir política (no sentido de toda ação humana com repercussão social) com política partidária, seja à esquerda, ao centro ou à direita, que é sempre orientada por um projeto de poder.  De qualquer forma, a política, partidária ou não, implica relação de poder.  Faz boa política quem fortalece e amplia o poder do povo e, de forma camarada, afirma o pertencimento à causa maior da emancipação humana.

               06. Jesus, o Nazareno, antecessor de todos os camaradas, enquanto habitou o curto espaço histórico da imanência, sempre fez a política do bem.  Enfrentou o poder, tanto político quanto religioso. Como recuperar a dignidade da política? Como libertar a política de três formas regressivas e danosas de poder: da caquistocracia (o poder do pior), da plutocracia (o poder da riqueza) e da necrocracia (o poder da morte)? A propósito dessas formas regressivas da política, quanta diferença em relação à vida pública (política) de Jesus de Nazaré, que passou pelo mundo fazendo o bem às pessoas (cfr. Mt 14, 34-36 e Mc 6, 53-56), preferencialmente aos pobres, postos à margem da vida e humilhados pelos poderes políticos e religiosos de seu tempo. Jesus de Nazaré era movido pelo Espírito do Bem, da afirmação da Vida. Tinha consciência de que ninguém podia servir igualmente a dois senhores (nemo potest dominis pariter servire duobus). 

               07. Por fim, recorro a uma célebre afirmação do bispo, profeta, poeta e camarada Dom Helder Camara (sempre execrado pela ditadura militar): "quando dou pão para os pobres, me chamam de santo. Mas quando pergunto por que os pobres têm fome, me chamam de comunista". O camarada Bertolt Brecht escreve que "a justiça é o pão do povo".  O triste é ver que a extrema direita brasileira, com sede de poder e sangue nos dentes, condena até mesmo o pão do assistencialismo. Nordestino sobrevivente das cercas, mais do que das secas, e por minha origem de classe, não poderia afirmar posição de classe que não fosse a dos caminhos da esquerda classista, condizentes com o Movimento de Jesus de Nazaré, que tinha lado e direção. Quem já nasceu sem teto (em Belém da Judeia ou no povoado de Nazaré da Galileia, como hoje se presume) não poderia jamais se apresentar como Deus dos Paços, que abrigam os opressores. Jesus, Caminhante e Camarada, é antes de tudo o Deus dos Passos e dos esfarrapados do mundo.

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* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, onde cursou e concluiu o mestrado (em Educação, 1998) e o doutorado (em Sociedade e Cultura, 2011). É teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões (em Manacapuru, AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana, CE). Manaus, AM, julho de 2026.

 

 

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