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Desigualdade e repressão

À desigualdade responsável pelos conflitos que abalam e põem em risco a sociedade e o Planeta podem corresponder vários fatores. Por causa disso, o fenômeno permite ampla geração de hipóteses explicativas. Algumas, marcadas por contradições flagrantes e frequentes. Outras, pela submissão da análise a valores e interesses nem sempre adequados ao trato da situação e das causas a que esta se liga. A contradição mais frequente diz respeito à simultânea cobrança de um estado menor com a reivindicação de que os serviços públicos sejam melhorados. Põem-se teóricos e pragmáticos a defender a primazia do mercado sobre os interesses da população, o que significa, no final das contas, permitir o enriquecimento feito à custa da permanência das necessidades com que se há a crescente massa de excluídos. Não é outra a constatação, se não a de que o estado, tenha o tamanho que tiver, será sempre visto pelos beneficiários da desigualdade como gestor de seus próprios negócios. A tradução, em termos da realidade, como o comitê dos interesses do capital. A chegada em massa de membros do empresariado às casas legislativas, quando não aos órgãos do Poder Executivo, é prova disso. Há, dentre esses novos agentes políticos, os que, percorrida longa jornada na atividade exclusivamente empresarial, obtêm mandato popular, menos para representar parcela do povo, que para advogar causas do interesse próprio de sua empresa, sua família ou seu ramo de negócios. Pior agora, quando os compromissos fundados em propósitos republicanos são substituídos por valores em nada condizentes com a república e os interesses coletivos. Esse é fenômeno transparente até na denominação das bancadas parlamentares. Os representantes ditos populares (só por alegoria tidos como representantes do povo), identificam-se por outros vínculos, como os das bancadas da Bíblia, do boi e da bala. Muitos desses, intrínseca e vigorosamente vinculados entre si por outro B - segundo percepção de grande parte dos media e da população: o da bandidagem. Talvez esta, a maior de todos os Bs. Para agravar ainda mais a realidade política e social, e fragilizar as esperanças dos perdedores de sempre, tem crescido a presença de agentes policiais e da segurança, seja no Parlamento federal, seja nas casas legislativas estaduais e municipais. Ou seja, além de capturado pelos interesses do capital, o estado - tentativa criada pelo homem para resolver de forma civilizada os conflitos decorrentes das diferenças individuais - ainda se vê permanentemente acossado pelos vieses decorrentes da percepção de todo acontecimento social como problema de polícia e segurança. Nada menos que um estado policial, em que a ordem e a paz pública se resumem a uma questão de segurança. Capturado pelos que se dizem defensores da democracia e da liberdade, o estado passa a ser não apenas dirigido e orientado pela mão invisível que tudo vê, menos a desigualdade por ele mesmo produzida, de forma arbitrária e violenta, em que os direitos humanos são invocado a partir da exclusão de uns - a maioria da população - , em proveito de outros, a minoria. Essas peculiaridades, que não são apenas nossas, raramente são discutidas. Em síntese: aos que se contentam com a desigualdade, porque a produzem e delas são beneficiários exclusivos, nada melhor que reprimir os descontentes. Assim se desenham, produzem e mantêm os estados policiais.

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