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Câncer social e suas metásteses 

Ao mesmo tempo em que uma advogada acumula funções com a titularidade de uma delegacia de polícia, um membro da mais alta corte de Justiça do País se enreda em um processo que o faz suspeito de relações pelo menos aéticas com envolvidos no que é visto como a maior fraude financeira registrada no Brasil. Mencionados pelo simbolismo de que se revestem, esses não são casos únicos, nem sua concomitância esgota o rol de acontecimentos prejudiciais à boa ordem democrática. Revelam, eles e tantos outros que muitas vezes duram pouco no noticiário, a tragédia com a qual convivemos. Menos por serem fatos desprezíveis, mas porque outros logo os sucederão, mais escandalosos ainda, nas páginas – políticas e policiais, porque protagonistas associadas no transcorrer da tragédia nacional. O caso da advogada-delegada, embora abordado de maneira inadequada pela maioria dos profissionais de comunicação, expõe um dos lados do ambiente que nos cerca e afeta a vida de todo cidadão. Crítico, portanto, a atribuição de ato criminoso à conduta da advogada-delegada, porque defende traficantes e, mais ridículo ainda, namora com um deles. Ao que saiba, um dos direitos individuais mais destacados da democracia é o direito à ampla defesa, dentro do que se chama devido processo legal. Se aos homicidas e envolvidos em golpes de estado tem sido assegurado o exercício desse direito, por que aos traficantes seria negada a defesa? Mais grave, ainda, quando o fato de namorar com um criminoso estende à profissional a suspeita de que comete crime, também.  Ninguém, que me conste, trata de investigar a omissão do poder público, transparente na posse em cargo público de quem está impedido de exercê-lo. É essa a situação da pretensa advogada-delegada, beneficiária no mínimo da negligência das autoridades do governo de São Paulo. Se o exercício do cargo policial não pode ser acumulado com as funções advocatícias, quem o tentou tem tanta culpa quanto a autoridade que o permitiu. No outro caso, em que o ministro José Antônio Toffoli é o protagonista-mor, pode-se colher impressão pouco favorável à própria corte em que ele tem assento. É verdade antiga a suspeita de que o magistrado não reúne as condições exigidas para chegar ao STF. Seu desempenho em concursos ligados ao notório saber jurídico tem ilustrado os últimos anos de sua vida, não de forma lisonjeira. A chegada ao topo da magistratura nacional, ao invés de tê-lo transformado em exímio e judicioso cultor do Direito e da Ética, por ele vem sendo entendida como a oportunidade de desafiar seus colegas (mesmo sem nenhum deles se cobrir de alguma auréola de santidade) e enxovalhar a austeridade exigível da maior corte de Justiça do País. Não faltam exemplos semelhantes aos de que se trata aqui, agora. Os três poderes, as instituições de classe, as entidades representativas dos diversos segmentos sociais e organizações públicas e privadas, se têm algum ponto em comum, não seria difícil identificá-lo – a máxima que diz Matheus, primeiro os teus.  Ou, sem qualquer lembrança bíblica e segundo a voz do povo – farinha pouca, meu pirão primeiro. Resumo da ópera: infeliz a república que assim se mostra! Uma espécie de câncer social, a espalhar metáteses, aqui, ali e acolá. Melhor que a indiferença para extirpar tumores é a ação dos cidadãos. A melhor oportunidade virá em outubro. Só um Congresso expurgado da maioria dos vírus que convivem em conivente e cúmplice harmonia poderá abrir caminhos e renovar esperanças que esmaecem, a cada novo escândalo. Pelo menos uma pergunta pode ser formulada, para despertar a reação das pessoas de bem: não é hora de centrar nossa atenção nas relações econômicas e no sistema de exploração do trabalho e da riqueza natural e avaliar qual o resultado da forma atual? Em termos mais rudes: a desigualdade e tudo o que ela determina não têm algo a ver com o caldo de cultura que deixa o câncer social prosperar?

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