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Cultura versus tortura

A tentativa de desacreditar a cultura e o povo brasileiros, vigente nos mais trágicos anos de nossa História (2019-2022), sofre duro golpe, agora. Resistente ao julgamento dos que tanto mal têm feito ao País e a seu povo, a direita não apenas exaltou pretensas virtudes da tortura, quanto tentou repô-la em vigência, às claras e sem nenhuma censura. Constituindo em si mesma um crime, a exaltação e o estímulo aos praticantes do ato hediondo levaram ao 08 de janeiro de 2023. Naquele dia, desmascarou-se o projeto golpista que culminou com a predação das sedes dos três poderes republicanos. Certos de que mais uma vez a impunidade triunfaria e protegeria os inimigos da democracia e do povo, os golpistas não perderam por esperar. Muitos deles estão hoje encarcerados, embora ainda não tenham sido todos julgados como mandam a Constituição e a Lei. Batendo de porta em porta, reincidindo nas práticas criminosas, peregrinando de gabinete em gabinete dos que ontem eram por eles agredidos, os delinquentes e seu grupo de protetores apenas ratificam tudo quanto sua malignidade tentava esconder. Na área cultural, talvez nem mesmo o período em que o Cinema Novo brasileiro tenha sido tão gratificante e promissor quanto agora, chegou tão longe. Não bastaram os prêmios atribuídos ao filme de Walter Salles Filho, Ainda estamos aqui, para levar ao mundo a cultura brasileira e o talento dos artistas com ela comprometidos. Maior é o impacto, hoje, sobretudo devido aos mais recentes atentados contra a cultura e tudo que dê dignidade às pessoas e à sociedade brasileira. As conquistas do passado, sobretudo no que toca ao cinema nacional, tão bem exemplificadas com Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade e Cacá Diegues ganharam o mundo com o apoio das autoridades da república e graças às políticas de incentivo às coisas e criações do espírito. Mesmo o predomínio dos obscuros governantes do período mais nefasto de nossa história não impediu o Brasil de recolocar-se no cenário artístico mundial. Se, ano passado, o filme de Walter e a escolha de Fernanda Torres marcam nossa presença, este ano entram na lista dos selecionados para o Oscar quatro categorias (melhor filme, melhor filme estrangeiro, melhor ator e melhor diretor de elenco) com o filme de Kleber Mendonça Filho, O agente secreto. Seria injusto esquecer que Sonhos de Trem disputa o prêmio de fotografia, a cargo de Adolpho Veloso. Cada dia, e sempre com maior força e justificada esperança, todos ainda estamos aqui.

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