Carona

Atualizado: 20 de Dez de 2019

Carona[1]

José Seráfico

Vestido em andrajos, o homem vivia ali, fazia anos. Nenhuma das muitas pessoas que passavam diariamente por aquele trecho do cais sabia ao certo qual o motivo por que ele morava sob a marquise que unia os grandes armazéns. Construídos havia décadas, davam a impressão de solidez presente nos edifícios de um só andar, talvez pelo material utilizado – pesadas peças de metal, flandres possivelmente. A proteção contra o sol mais forte e a chuva costumeira, quase sempre copiosa, dava-a a marquise. Sob ela passavam os tripulantes das embarcações de todo porte, as centenas de carregadores que a mecanização do porto ainda não conseguira condenar ao desemprego, os passageiros das embarcações menores e dos transatlânticos que aportavam ali. Não eram muitos os outros visitantes, quase sempre pessoas que se despediam de visitantes trazidos nas embarcações maiores, além de simples curiosos por conhecer as instalações portuárias.

Eram raros os que dirigiam palavras ao homem magro, no qual era fácil identificar fome costumeira (como acostumar-se com ela?!), ainda que fosse exagero dizê-lo ostensivamente infeliz. Suas vestes, seu andar claudicante, a barba desgrenhada, o chapéu amarrotado dando sombra ao rosto marcado pelas primeiras e bem marcadas rugas – faziam supor mau cheiro. Não era bem assim.

Comum era os raros interlocutores que por motivo nem sempre bem explicado se aproximavam dele, referirem sua forma cordata de relacionar-se com os outros. A delicadeza do tratamento que dispensava aos que a ele se dirigiam (bom dia, como vai o senhor? E sua família, como está? – ouviram alguns, saídas da boca daquele morador de rua) e a conversa agradável que sabia manter acabavam por reinseri-lo na sociedade que rejeitava. E que o condenara àquele tipo de exílio.

O homem sentia-se, se não estimado, tolerado. Nunca lhe fora negado o café com pão que os trabalhadores do porto ofereciam, às vezes com a promessa de que podia contar com o almoço daquele dia. Nem deixou de comer quase sempre uma só vez, todo dia. Não fosse isso, a prolongada permanência ao relento e as noites algumas vezes frias já lhe teriam minado a resistência. Se dele não seria justo dizer-se um homem sadio, menos ainda se poderia considerá-lo acabado.

Pedir um favor a tripulante de um dos grandes navios aportados repetidamente na frente do armazém em que assentou morada não pareceu ao homem ato de qualquer ousadia. Nem o surpreenderam a compreensão do comandante e a consequente e coerente resposta: você vai conosco, sim. Arranjaremos um alojamento discreto em um dos porões, de onde só sairá quando chamado.

Em seguida, o comandante escreveu, dialogando com o novo tripulante, a lista de tarefas a cumprir no longo trajeto. E pôs na mão dele o elenco de motivos que o tirariam do esconderijo. Um clandestino não pode mostrar-se. Mesmo se conta com a humana cumplicidade dos que mandam.

O que teria convencido o homem do mar a levar consigo um outro homem, nem do ar nem do mar, da terra também não? O brilho nos olhos do outro, enquanto falava de lugares aonde nunca estivera, o que o fazia infeliz? A generosidade do comandante, desde o primeiro encontro provocada pelo tipo de vida daquele homem afável, cordato, nobre nas atitudes, sábio nas palavras, concedido na expressão dos sentimentos? Ou a urgência de contar com mais um auxiliar, que as regras não permitiriam atender a tempo?

Um e outro - o comandante e seu novo taifeiro – sequer se deram o trabalho de considerar essas dúvidas. De que lhes adiantaria ocupar-se além dos motivos por que um desejava conhecer mais que sua aldeia, e ao lobo do mar interessava oferecer esse pequeno pedaço de felicidade ao outro?

O morador de rua, pouco a pouco se integrou aos tripulantes do barco. Sem que todos, o clandestino e equipagem regular da embarcação, se dessem conta, o homem parecia acostumado àquele ambiente. Cumpria com dedicação as tarefas e ainda colaborava com seus colegas regulares, mesmo que isso exigisse orientações específicas. Nunca qualquer dos embarcadiços estranhou sua presença. Nem alguma pergunta lhe foi feita sobre como e por que estava ali.

Durou meses a viagem. O taifeiro novato cada dia mostrava-se mais solícito e aplicado. Não houve uma só vez em que mereceu a correção por tarefa mal feita. Também não lhe foram negados gratidão e elogios pela conduta e o companheirismo revelados.

Em cada porto onde desembarcaram, o morador de rua parecia velho embarcadiço. Nos grupos de marítimos que iam à terra e frequentavam os lupanares, punha-se à vontade. Mesmo as mulheres mais experientes não o distinguiam dentre os companheiros, alguns velhos conhecidos delas.

Já nāo eram andrajos o que ele vestia. O pouco de dinheiro posto em suas mãos serviu-lhe para comprar roupas. Em cada cidade visitada, às vezes apenas por poucas horas, o novato e semioculto tripulante deixava o resultado da coleta que seus companheiros faziam. E levava consigo, além dos trajes comprados, impressões que seus olhos e ouvidos, tato, olfato e paladar haviam captado. Teria com que entreter a conversa que tanto lhe aprazia, poucos ou raros fossem os que dele se aproximavam, na beira do cais onde morava.

De Barcelona diria que lhe viera à memória uma tal Dolores Sierra, que como ele tinha por universo o espaço de um cais. Ficou certo, com a viagem, de que algo havia que os atara, Dolores e ele, mais que uma cama onde, na cidade espanhola, passaram noite inteira de fugaz gozo.

Marselha fê-lo lembrar-se dos tempos em que frequentava a escola. Não fora a Revolução Francesa o episódio relatado em sala de aula que mais marcou sua rápida e curta passagem pelo colégio? Por isso, incluiu dentre os temas de suas eventuais e futuras conversas, a tentativa de cantar a Marselhesa.

Poucas das palavras de CAMILLE DESMOULINS contidas no hino despertavam nele leve desejo de um dia conhecer a cidade inspiradora. Agora, o desejo acrescentava o de proferir, na língua escassamente conhecida, alguns dos versos da música. Quem dera um dia pudesse canta-la inteira para um raro interlocutor de beira de cais!...

Em Hamburgo, uma visita ao Distrito de Saint Pauli seria inevitável. Talvez não o cenário que o clandestino um dia imaginou. Menos pelo que ele poderia desfrutar, como desfrutara em outras escalas, como a de Barcelona.

A mulher alemã que lhe prestou serviços especializados, conviva cuja experiência envolveu colegas dele vindos das mais diferentes regiões do mundo, surpreendeu-se ao vê-lo chegar. Trazia nas mãos uma pequena caixa, difícil de ocultar o conteúdo. Antes mesmo de balbuciar alguma palavra inaugural do encontro que nem mesmo precisa de um idioma específico para consumar-se, o visitante pô-la na mão da exuberante hamburguesa. Ela apenas sorriu e o levou para seu quarto. A caixa de chocolates ficou sobre o criado mudo.

Quando o barco encostou no cais que o homem fazia de casa a céu aberto, ele compreendeu quanto a carona mudara sua cabeça. Acumulara conhecimentos que antes lhe foram negados, visitara lugares de que jamais alguém lhe informara algo.

Não houve um só que se lembrasse de nomeá-lo comandante náutico.

[1] Escrito quando se anunciava a futura nomeação do Ministro de Ciência e Tecnologia, um militar que fez uma viagem ao espaço. O conto foi selecionado em concurso nacional da Editora Off Flip, e constou da coletânea Prêmio Off Flip- 2018.


20 visualizações

Arquitetado e Produzido por WebDesk. Para mais informações acesse: wbdsk.com

Todos os Direitos Reservados | Propriedade Intelectual de José Seráfico.