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As acusações de genocídio em Gaza


Guga Chacra*


O governo de Benjamin Netanyahu comete genocídio na Faixa de Gaza, segundo a Comissão de Inquérito das Nações Unidas. O governo de Netanyahu comete genocídio em Gaza, segundo a Anistia Internacional. O governo de Netanyahu comete genocídio em Gaza, segundo o Médicos Sem Fronteiras. O governo de Netanyahu comete genocídio na em Gaza, segundo o Human Rights Watch. O governo de Netanyahu comete genocídio em Gaza, segundo o grupo Save the Children. O governo de Netanyahu comete genocídio em Gaza, segundo a Associação Internacional de Estudiosos do Genocídio, que reúne mais de 500 acadêmicos. O governo de Netanyahu comete genocídio em Gaza, segundo David Grossman, que talvez seja o maior escritor israelense vivo. O governo de Netanyahu comete genocídio em Gaza, segundo a entidade de defesa de direitos humanos israelense B’Tselem. O governo de Netanyahu comete genocídio em Gaza, segundo grupo israelense Médicos para os Direitos Humanos. O governo de Netanyahu comete genocídio em Gaza, segundo lideranças internacionais de nações democráticas como os presidentes da África do Sul, Chile e Brasil.

Poderia seguir listando mais uma série de entidades e governos que acusam o governo de Netanyahu de cometer genocídio em Gaza. Sei que o governo de Netanyahu repudia essas acusações e afirma lutar contra o Hamas, depois de a organização terrorista matar cerca de 1.200 israelenses e sequestrar 251 no atentado de 7 de outubro. Sei também que a Corte Internacional de Haia ainda não tomou uma decisão sobre a acusação feita pela África de Sul e uma série de países de que o governo de Netanyahu comete genocídio em Gaza. Ao mesmo tempo, o Tribunal Penal Internacional já pediu a prisão de Netanyahu por crime de guerra.

Membros radicais do governo de Netanyahu defendem abertamente a limpeza étnica dos palestinos na Faixa de Gaza. Alguns vão além e querem a limpeza étnica também na Cisjordânia. Netanyahu afirmou na semana passada que "não haverá um Estado palestino". Sempre escrevi ser repugnante quem não reconhece o direito de Israel existir. É tão repugnante quanto não reconhecer o direito de uma Palestina independente existir. A não ser, claro, que Netanyahu concedesse cidadania para os 5 milhões de palestinos dos territórios. Mas o primeiro-ministro é contra uma Palestina independente e contra um Israel englobando os palestinos dos territórios com direitos iguais.

Acompanho o conflito faz décadas e decidi ser jornalista com o sonho de um dia cobrir um acordo de paz entre israelenses e palestinos. Nunca vi, ao longo deste período, Israel tão isolado. TVs da Irlanda e da Holanda querem a expulsão de Israel do Eurovision. O premier da Espanha, Pedro Sánchez, quer a suspensão de Israel de competições esportivas internacionais, como ocorreu com a Rússia de Putin e a África do Sul do apartheid. Turistas israelenses são hostilizados na Grécia e na Itália. A maior parte dos eleitores de Nova York simpatiza mais com os palestinos do que com os israelenses — algo impensável dois anos atrás.

E a culpa é de uma pessoa que se chama Benjamin Netanyahu. Com ele no poder em Israel e as atrocidades cometidas em Gaza, cada vez mais pessoas, entidades, governos e pessoas do mundo todo farão a acusação de que ocorre um genocídio. Como escrevi aqui no passado, algumas não o fazem pelo temor de serem chamadas de antissemitas, ainda que culpem especificamente o governo extremista de Netanyahu.

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*Correspondente da Globo News em Nova Iorque.

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