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A política externa norte-americana e a modernidade- mundo

Marcelo Seráfico*


Houve uma, e apenas uma, e decisiva mudança na política externa dos EUA... e nem sei se podemos chamar de mudança ou apenas de inflexão, pois segue o que já foi feito em outros momentos: o soft power deu vez ao hard power.

A diplomacia, agora, sucede as guerras, iniciada depois de lançadas as bombas.

Devemos nos perguntar o por quê disso. E mais, o por quê de todos os países que se deparam com essa "mudança", ao invés de aflitos, mantêm absoluta sobriedade. Afinal, veja-se como Canadá e México estão lidando com o Império.

Uma das maiores qualidades na política está na capacidade de gerar consenso e conquistar a hegemonia. Esse movimento também exige do governante qualidades, chamadas por Maquiavel de Virtú e Fortuna. A primeira nada tem a ver com nossa compreensão comum de "virtude", mas sim com a sensibilidade típica de quem, para governar, entende o jogo das forças e conflitos, sabendo lidar com eles de modo a assegurar as condições necessárias ao governo de um Estado.

A Fortuna tampouco tem a ver com sorte, mas sim com a capacidade de, entendendo as circunstâncias gerais, aproveitá-las em proveito da manutenção da unidade do Estado.

Para Maquiavel, assim como para Gramsci, a questão política central de quem governa - um pensava no Príncipe e o outro no Partido - era manter a unidade e a integridade do Estado nacional, então (um pensava no século XVI e o outro no XX) em formação.

E hoje?

Os Estados nacionais, foram, em boa medida, desintegrados pela globalização econômica. Aquele que parecia ser o maior e exclusivo beneficiário desse processo, os EUA, revela-se o mais fraco e incapaz de lidar com as consequências do que produziu.

Num português mais simples, poderíamos dizer que estão tendo de lidar com a volta da chibata!!

Trump, portanto, é muito menor do que parece. Ele não é causa de nada, apenas sintoma.

Desde a II Guerra Mundial, a base da diplomacia norte-americana foi o porrete. Com ele em punho e as palavras "mercado e democracia" na boca, promoveu todo tipo de conflito pelo mundo, desestabilizando nações e impedindo-as de fazer seus próprios experimentos políticos e econômicos - afinal, a luta contra o socialismo não passou de uma estratégia violenta de expansão do capitalismo!!

Essa luta foi vitoriosa. Mas findado o socialismo, sumiu também o espantalho usado como justificativa para toda brutalidade do "mundo livre".

Qual seria o novo inimigo? Inventaram os terroristas - sim, o terrorismo internacional (com raras exceções) foi cria da CIA - e ele se reinventou.

Depois de destruírem o Iraque e controlarem o Afeganistão, os EUA foram desafiados por um dos atos políticos mais significativos da história moderna, o 11 de setembro de 2001.

Não importa se houve ou não houve colaboração do próprio governo norte-americano para o ocorrido. O que importa é a reação enlouquecida do governo do Império. O mundo, que era inseguro para a maioria dos viventes, se revelou inseguro também para os habitantes da "land of the free".

Com o pretexto de "guerra ao terror", o governo norte-americano barbarizou geral!! O Patriot Act foi um AI5 disfarçado, agora radicalizado por Trump.

Enquanto fazia suas guerras (contra o socialismo, contra as drogas, contra o narcotráfico e contra o terrorismo), os EUA varriam da Terra tudo que não coubesse em seus interesses.

Enquanto isso, a Rússia e a China se reorganizavam por dentro das relações de mercado, mas resguardando ao Estado papel político central nos rumos de seus países. Ou seja, esses Estados não se tornaram apenas uma extensão do "business". Foi isso que ocorreu com os EUA, o Estado, ele mesmo, não passa de um grande business. Trump diz isso abertamente e crê que, assumindo a postura de um Barão Ladrão, de um capitão da indústria, do CEO de uma corporação monopolista, será capaz de enfrentar os impasses políticos em que se vê um país que, paradoxalmente, depende em quase tudo de outros.

A dependência estrutural que era típica da periferia do mundo se instaurou nos centros do capitalismo com a globalização. Mas os agentes políticos desses centros parecem não ter entendido isso... e nem muitos das periferias. Todos continuaram a agir como se o mundo do breve século XX, como o qualificou Hobsbawn, não tivesse findado em 1991 e daí em diante passara a experimentar profunda transformação.

A Rússia de Putin e a China de Xi Ji Ping entenderam. Não apenas isso, entenderam e agiram.

Estamos assistindo a um processo histórico ímpar: o esfacelamento de um mundo que nos parecia familiar e o nascimento difícil de outro que, pela novidade, pode nos assombrar.

Não é a primeira vez que isso ocorre na modernidade. Mas talvez seja a primeira vez em que ocorre na modernidade-mundo.

Para mim, há uma singularidade perigosa no presente que não havia no passado. Trump tem à mão o botão da bomba atômica. Hitler não tinha. Portanto, a insensatez, a boçalidade e a "mentalidade empresarial" de Trump podem levá-lo a jogar toda a mercadoria excedente fora para não ter que abaixar os preços.


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