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A PACIFICAÇÃO DOS MORTOS*

O Brasil está dividido há séculos, desde o primeiro momento da chegada dos colonizadores.

Como poderia haver pacificação quando saqueadores europeus chegaram na Terra das Palmeiras empunhando arcabuzes e espadas, matando em nome de Deus e em nome do rei.

Do lado daqui, milhões de indígenas. Do lado de lá, expedições à procura de riqueza para roubar.

Nunca foi pacífico. Eles sempre mataram e roubaram.

Não pode haver pacificação entre grileiros, que se apropriaram de terras públicas, quase todas as terras disponíveis, e agricultores que produziam para seu sustento, da sua família e do Brasil, numa sobra de áreas permitidas pelo Estado oligárquico.

Hoje, a propalada pacificação da extrema direita brasileira, aquela apelidada de bolsonarista, é a pacificação dos mortos.

É aquela do “não use máscara e encha os cemitérios” de um lado e seus agentes públicos corruptos negociando o aumento de um real em cada dose de vacina, para enriquecerem às custas da vida de 700 mil brasileiros e as famílias das vítimas, que sofrem as perdas dos seus entes até hoje.

Como pode haver pacificação entre quem mata e quem morre?

O Brasil tem uma das maiores desigualdades sociais do mundo. Somente cinco bilionários acumulam fortuna equivalente aos salários de 100 milhões de brasileiros juntos.

Como pode haver pacificação entre quem trabalha seis dias na semana e não tem suas necessidades de vida supridas e meia-dúzia de exploradores, donos de bancos e indústrias, que não produzem nada e se apropriam da riqueza produzida pelo trabalhador?

Não existe pacificação entre a vítima e o carrasco.

Não pode haver pacificação entre os que defendem o fascismo, essa corrente política que adora a tortura e a morte, e os que defendem o respeito mútuo, o voto popular, o pluralismo partidário e a tolerância.

Fascista é um ser das trevas. Ele é incompatível com a civilização. Atua na democracia para derrubar a democracia e instaurar o obscurantismo.

Não pode haver pacificação entre o racista, o misógino, o homofóbico e as vítimas mortas pelo preconceito por eles defendido.

Não é possível haver pacificação entre aquele que morre e aquele que mata ou apoia o crime.

O Brasil continuará dividido até não existir mais tanta maldade de um lado e tanto sofrimento de outro. Enquanto uns tiverem tudo e outros não tiverem nada. Enquanto uns se apropriarem do trabalho de muitos para ficarem milionários e os muitos trabalharem sem direito a quase nada.

O Brasil continuará dividido enquanto existirem falsos cristãos, que fogem aos desígnios do seu Deus e seguem o caminho do capeta, enquanto outros cristãos querem apenas a bondade como construção da humanidade.

Não haverá pacificação entre o Brasil dos brasileiros e os traidores da pátria.

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*Lúcio Carril – Sociólogo


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