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A crônica ainda não escrita: "Felicitaciones por el tetra"

22 de jul.
3 min de leitura

José Ribamar Bessa Freire

Em: 19 de Julho de 2026


Sonhava eu escrever uma crônica com o título “Felicitaciones por el tetra”, parabenizando os argentinos pela conquista da Copa, após a final contra a Espanha. Não foi ainda dessa vez. Os hermanos resistiram bravamente, mas o adversário jogou melhor, mereceu ser bicampeão com um esquálido 1 x 0. Qualquer derrota traz sempre uma compensação. O clima de ufanismo que Milei queria capitalizar politicamente foi brecado. O juiz do VAR Donald Trump, carniceiro fazedor de guerras, teve te engolir o atual presidente da Espanha, Pedro Sánchez, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), que condenou a matança generalizada de crianças e civis no Irã. 

Na realidade, o que eu queria mesmo era retribuir os parabéns que um dia me deram em Buenos Aires.  Foi assim. A velha rivalidade com o Brasil estava no auge, em agosto de 1994, quando visitei a cidade do tango, no momento delicado em que o Brasil celebrava o título de tetracampeão conquistado nos Estados Unidos, vencendo a Itália nos pênaltis, enquanto a Argentina era apenas bicampeã (1978 e 1986) e, sem Maradona, havia sido eliminada pela Romênia naquela Copa de 1994.

Depois de vagar à noite pelo bairro de San Telmo, eu precisava pegar um táxi para voltar ao hotel. Pensei, então, com os meus botões. Epa! Não, não. Botões não. Para treinar meu domínio na língua "yo pensé para mi bocho" em lunfardo, gíria rio-platense: “El tachero no puede saber que soy brazuca”. Gosto de bater papo com taxistas, mas desta vez decidi não abrir a boca  para não ser identificado como brasileiro. Não queria jogar lenha na fogueira da rixa, além do que alguns tacheros podem cobram mais caro de estrangeiros, como sói acontecer em qualquer lugar do mundo.  

- ¿Para dónde va usted? - perguntou o taxista, colocando o ponto de interrogação de cabeça pra baixo antes da frase como fazem os falantes de espanhol, quando escrevem, para antecipar a entoação do texto.

O hotel Ibis, onde eu estava hospedado, fica na esquina de duas ruas muito conhecidas do micro centro portenho. Então respondi o estritamente necessário, com um grau de sofisticação incrível, modéstia à parte:

- Corrientes con Florída - pronunciei cuidadosamente Corrientes, sem usar aquele "r" da garganta típico do português, fazendo o "r" vibrar na ponta da língua e tentando desnasalizar ao máximo.  Não adiantou. O taxista - tachero em lunfardo, sacou e me cumprimentou em cima da bucha:

- Felicitaciones por el tetra.

 Oh, my God, why do you sempre me phode?  Com apenas três palavras, o argentino identificou meu sotaque arretado e descobriu que eu era brazuca. I don`t bélieve, bichinho. Percebi, então, que no manejo do idioma dos hermanos, não era eu essa Coca-Cola toda, ou “cueca cuela”, como diria o técnico Joel Santana, para quem, certamente, “mi español es fueda”. De qualquer forma, o fato me liberou para ir batendo papo com o taxista, sem censura alguma, e falar o que me deu na telha. Foi bom, porque ele admirava o Brasil, gostava dos brasileiros e conhecia Camboriú, em Santa Catarina. Falou com entusiasmo de Jorge Amado e comentou, com muita propriedade,  Gabriela, Cravo e Canela.

Não foi agora que pude escrever a crônica do tetra, que havia planejado para agradecer o taxista tão gentil e tão letrado. Dessa vez, não foi possível, porque o tetra de um virou o bi de outro. Na Copa-2030, vamos torcer para o Brasil conquistar o hexa, o que poderá acontecer se: 1) o Neymar não for convocado; 2) o mister Ancelotti parar de mascar chiclete; 3) a seleção brasileira recuperar a alegria e a garra de jogar futebol; 4) O Brasil gritar depois das eleições presidenciais: "Lula, felicitaciones por el tetra".

Mas se essas quatro condições não forem preenchidas, então  voltaremos a lutar pelo tetra da Argentina, que será sempre nossa segunda opção de torcida. E gritaremos em lunfardo com todos os nossos plenos pulmões:

¡Vamos, lo´pibe´! ¡Vamos,  Argentina, carajo! ¡Aguante Argentina, che!

Referências:

Taquiprati. As diversas línguas faladas em português. Diário do Amazonas. Manaus. 15/11/2009. https://www.taquiprati.com.br/cronica/831-as-diversas-linguas-faladas-em-portugues




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