Vaidade e remorso

O que resta em mim de esperança na sociedade humana trabalha contra o maniqueísmo. Nenhum dos bípedes a que, às vezes inadvertidamente, chamamos humanos, foge à regra: dentro de cada um de nós, todos, convivem vícios e virtudes. Há mesmo alguns que buscam o bem, através de pequenos vícios, em geral malfazejos aos portadores mais que ao próximo. A vaidade, por exemplo, tem levado a grandes inventos, tanto quanto a grandes obras literárias e artísticas em geral. Raramente à boa gestão dos interesses coletivos. Disso sei menos que a maioria dos meus contemporâneos mais velhos. Estes, escasseando a cada dia, como sei que também um dia faltarei. O importante é compreender que do vaidoso se pode às vezes exigir mais do que eles aparentam dispostos a oferecer. O desejo de agradar-se a si mesmos acaba por beneficiar terceiros. Costumo aplicar uma frase para o desejo de aparecer bem na foto, emprestando caráter positivo ao agente: é tão egoísta que, para satisfazer-se, é capaz de praticar o altruísmo. Outro dos vícios é o remorso. Em tempos de crise e de morte, é certo que há os aproveitadores de qualquer oportunidade para fazerem-se mais ricos, daquela riqueza que só aos seres menores mobiliza. Não falarei mais disso, tanto o noticiário tem trazido os contemplados com a sorte grande, enquanto são multiplicadas as covas dos cemitérios, no Brasil e em todas as outras nações, reféns do esterco do mundo, como dizia o Bispo da Antióquia, Basílio, no século IV - o dinheiro. Mesmo esses, todavia, têm alguma possibilidade de cometer gesto elogiável. O que lhes resta de honra (o oásis encontrado no mais profundo fosso interior do individuo, como dizia meu velho mestre de Direito Penal, Aldebaro Klautau) manifesta-se na hora da dificuldade, transformando remorso em doação e benemerência. Para ele é possível ainda haver a conversão à boa causa. A vitória do remorso contra o egoísmo.

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