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Desastre e acumulação

Oportuna e desafiadora informação é trazida pelo Globo, edição de ontem, sobre as dez maiores enchentes registradas no País, no período 1948-2022. Os dados contêm-se num quadro em que são apresentados os números relativos às despesas emergenciais realizadas em cada um dos locais, número de mortos, ano de ocorrência e unidade da Federação atingida. Cinco são os Estados relacionados, sendo que o maior número de mortos corresponde ao Rio de janeiro. Lá, as 6 enchentes registradas tiraram a vida de 3.480 seres humanos. Destes,1.700 morreram na região serrana, em 1967. No mesmo ano, em Caraguatatuba, SP, as vítimas foram 436. Enquanto o quadro coloca o Rio de Janeiro como a unidade federativa onde mais vidas foram perdidas ao longo do período, em Santa Catarina, 2008, registrou-se o menor número dentre as dez tragédias - 135 mortos. Entram no quadro, ainda, os Estados de Minas Gerais (Zona da Mata, 1948, com 250 mortos); Pernambuco (Grande Recife, 175) e Santa Catarina (Vale do Itajaí, 2008, 135 mortos). No Rio de Janeiro, a região serrana é a mais vulnerável, sabendo-se que todo ano são prometidas providências capazes de prevenir e proteger sobretudo as encostas, como foi feito em 1967. Ainda hoje, no alto de muitos morros fluminenses, em especial na zona sul, podem ser vistos enormes espigões metálicos, lá instalados como forma de fixar as imensas e ameaçadoras pedras. Também chama a atenção, no levantamento publicado pelo Globo, o volume de recursos gastos em Santa Catarina, o maior de todos, ainda que lá se tivessem registrado 135 mortes. O total despendido em razão do desastre que afetou o vale do Itajaí consumiu 4,8 bilhões de reais. Esse montante corresponde a quase 42% da soma dos recursos gastos nas dez ocorrências. Quase 30 milhões per capita. No Rio de Janeiro, onde morreram cerca de 75%, foram consumidos pouco mais de R$ 500 milhões, equivalentes a R$ 10,9 mil por morto. Talvez não seja o caso de levar em consideração os valores envolvidos na mitigação do sofrimento das populações atingidas. Perder uma só vida humana justificaria a indignação de todos, se fôssemos todos solidários e realmente humanos. Mas indagar das razões por que são tão díspares os valores ajudaria a entender melhor as grandes desigualdades que marcam a sétima economia do mundo, onde há pelo menos 40 anos só há um sistema econômico, privado ou de Estado - o capitalismo. Quem sabe descobríamos que os chamados desastres têm lá sua própria lógica? E esta, certamente, não beneficia se não pequena parcela da população? E sempre os mesmos...

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