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Uma democracia de araque

Cresci ouvindo a conversa de que os Estados Unidos são a maior democracia do mundo. Não demorou para que eu deixasse de acreditar em Papai Noel e descobrir que a democracia americana é uma falácia.

Como pode numa democracia o presidente da república ser eleito por um colégio eleitoral e o candidato mais votado pelo povo ficar de fora?

Nos EUA, a desproporção do peso de voto entre um estado e outro pode levar o candidato mais votado a ficar sem o mandato de presidente.

Foi o que houve com Hillary Clinton, que em 2016 teve 3 milhões de votos a mais do que Trump e, mesmo assim, o fascista virou presidente. A razão desse absurdo está na composição do colégio eleitoral, formado de quatro em quatro anos. O voto de um cidadão da Califórnia vale 64 vezes menos que de um cidadão de Dakota do Sul.

Mas a farsa da democracia estadunidense não fica por aí.

Há mais de 170 anos que apenas dois partidos de direita disputam as eleições presidenciais nos Estados Unidos: democratas e republicanos. Existem outros partidos, mas o sistema de eleição de delegados para formar o colégio que elegerá o presidente impossibilita a participação dessas agremiações. O voto é por maioria simples e num único turno. O partido que tiver um voto a mais do que os outros, leva todos os delegados. Essa regra ocorre em 48 dos 50 estados americanos, mais a capital Washington, D.C.

E a campanha?

Aí vem outra farsa antidemocrática.

O financiamento privado de campanha é ilimitado. A suprema corte americana entendeu que dinheiro era uma forma de liberdade de expressão e não poderia ser limitado. Na última eleição presidencial, estima-se que cada candidato gastou um bilhão de dólares. São criados comitês de arrecadação, os quais não são obrigados a revelar os nomes dos doadores. Claro, quem emprega grana numa campanha quer retorno quando o candidato ganhar, mas isso não é ilegal e nem é visto como porta aberta para corrupção.

São muitos os pontos que indicam que a democracia estadunidense é uma farsa montada e vendida ao mundo como exemplo.

Em 2025, Donald Trump mandou invadir universidades e prender mais de 2.000 estudantes que protestavam contra o genocídio do povo palestino. A invasão de instituições de ensino ocorre com frequência nas ditaduras. Prisões políticas, espancamentos e destruição do patrimônio público também são marcas de regimes autoritários.

E o estado de direito?

A constituição dos Estados Unidos que vigora até hoje é a de 1787, mas recebeu nesses mais de dois séculos 27 emendas, a última foi sobre os salários dos congressistas, em 1992.

O problema do estado democrático de direito americano é a fragilidade do judiciário diante de governos autoritários como o de Donald Trump. O mundo tem assistido nos dias de hoje a uma avalanche de desrespeito aos direitos civis e humanos no país. Uma milícia para perseguir imigrantes foi criada e age fora da lei, invadindo residências sem mandado judicial, matando, espancando e prendendo estrangeiros que não cometeram crime e estão em processo de legalização da sua permanência no país.

A milícia, chamada de ICE, atua com a mesma violência da Gestapo nazista e a suprema corte americana continua silente, como que concordando com as atrocidades. O mesmo ocorreu com a deportação de presos para El Salvador, sem autorização do judiciário e quando houve manifestação, não foi cumprida.

Não precisa garimpar informações sobre a fragilidade das leis nos EUA. Basta lembrar que não existe justiça eleitoral, que criminoso condenado pode governar o país, como no caso de Trump, condenado por estupro em 2023 e que tem mais de 20 acusações pelo mesmo crime, já tentou um golpe de Estado e mesmo assim assumiu a presidência do país. Não estamos falando de democracia, mas de um regime distópico, que acolhe e protege criminosos e fecha os olhos para os crimes.

Esse Estado, que se diz democrático e a maior democracia do mundo, já invadiu mais de uma centena de países, matou presidentes, cometeu assassinatos, jogou bombas sobre centenas de milhares de civis, roubou e ainda rouba riquezas de outras nações, comete todo tipo de atrocidades, com atitudes bárbaras e desumanas. Estados Unidos são muita coisa, mas não uma democracia.

Democracia é um regime de participação e cidadania, com inclusão de minorias, respeito aos direitos civis, políticos e humanos. A democracia está vinculada à modernidade e aos processos de desenvolvimento social. É parte intrínseca dos Estados modernos e sua substituição por regimes autoritários é um desvio na história. Os EUA criaram um sistema político que não pode ser chamado de democrático, pois não é um valor universal e sim um instrumento de poder e opressão.

A democracia estadunidense é uma farsa.


Lúcio Carril

Sociólogo

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