Salteadores, togas e mandatos
- Professor Seráfico

- há 8 horas
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Leio Dalcídio Jurandir, o romancista paraense de Chove nos campos de Cachoeira. Talvez o livro mais conhecido do escritor nascido na ilha do Marajoara, muitos críticos colocam Belém do Grão-Pará no mesmo nivel, alguns achando este melhor que o primeiro, publicado quase 20 anos antes. O protagonista de ambos, Alfredo, tem tudo para conferir atributos autobiográficos a esses e outros romances de Dalcídio. Pelo menos, ao que parece a este canhestro e resistente leitor que ainda se ocupa em ler livros. De papel e tinta. No mínimo, digo em minha própria defesa, e antes que os não-leitores e leitores distraídos me ataquem, a percepção do autor sempre depende de seus próprios sentidos e experiências. Logo, são suas as tintas com que pinta cenários e situações em que se envolvem as personagens, de resto, por ele criadas. Mas não é dos aspectos -chamemos assim - técnicos ou estilísticos que desejo tratar. Dessas têm dito e dirão mais e melhor os críticos literários, com os saberes que, tendo-os eles, não os tenho eu. O que me motiva, agora, é a denúncia encontrada à página 233 do quarto romance de Dalcídio, publicado pela EDUFPA, em 2004. Ao descrever o diálogo entre Dona Inácia, uma lemista cujo marido caiu em desgraça quando Antônio Lemos foi derrubado do poder, e um dos que antes traíra o líder político do Pará daquele então. Feito juiz, depois desembargador, o magistrado afirmava a Inácia seu propósito de liquidar manifestantes rebelados contra o governo a que ele prestara serviços eleitorais, pós-traição. Para o desembargador (Julião Gomes, chama-o o autor), ele liquidaria os salteadores do Guamá. Já distante do magistrado, Inácia se dirige ao seu jovem acompanhante, Alfredo: Salteadores...Como se o povo pudesse livar-se desse salteador de toga. Já os havia, portanto, naquele passado que não passou. Hoje, Inácia talvez incluisse em seu chiste gente que não usa toga, mas ostenta mandato.

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